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domingo, 23 de janeiro de 2022

1973 - ANO UM (Parte 2)

 


A MINHA PRIMEIRA "FIGUEIRA"

O ano de 1973 reservava ainda um evento relevante para eu vivenciar, desta vez como concorrente: o II Festival Mágico da Figueira da Foz, organizado pela "carolice empenhada" de Fausto Caniceiro da Costa. Concorri na modalidade de Magia Geral e fruto das inovações que, pouco tempo antes, vira na FISM de Paris, optei por substituir as "tradicionais" mesas de mágico por um cenário que aparentava ser um muro feito em tijolo "burro". Tal cenário foi fabricado em madeira e era dividido em três secções principais (e grandes), as quais eram unidas por intermédio de dois blocos de dimensões mais razoáveis para transporte.

Como não tinha carro nem carta de condução, "cravei" o Dr. Homero Rocha (DE ROCK) para me dar boleia para a Figueira da Foz. A viagem de ida foi efectuada de dia e o entusiasmo partilhado pela participação no Festival ocupou o nosso diálogo e fez parecer rápida uma viagem naturalmente demorada, pois a auto-estrada para aquele destino ainda não havia sido construída. O espaço entre bancos da viatura era ocupado pelas peças maiores do meu "muro", pois a mala do SIMCA 1100 não tinha bagageira com arcaboiço para as mesmas.

A presença no Festival da Figueira permitiu-me ter contacto pessoal com alguns mágicos do sul do país, os quais apenas conhecia de nome. SAIUR, JODIVIL e JÓNIO foram três deles. A minha prestação no concurso de Magia Geral foi modesta, tendo obtido o 6º lugar entre 11 concorrentes. Matematicamente falando: exactamente a meio da tabela! Nada mau para um principiante. Mas o que verdadeiramente destaco de todo o ambiente vivido nesse Festival foi a camaradagem nos bastidores e sentido de entreajuda dos diversos concorrentes.


O programa do Festival terminou no domingo (7 de Outubro) com o Espectáculo de Gala e distribuição de prémios. Claro que o 6º lugar não dava direito a prémio, mas permitiu-me obter um diploma de participação.

Uma desenvolvida reportagem sobre este Festival Mágico da Figueira da Foz foi transmitida no programa Movimento da RTP e pode ser apreciada aqui.

Terminado o espectáculo, havia que arrumar as "tralhas" no SIMCA 1100 do Dr. Homero Rocha. E com uma dificuldade acrescida: o Ivo (que algum tempo depois adoptaria o nome artístico de Fred Alan) também iria viajar connosco para o Porto... Ele e a sua bagagem, claro! O Ivo estava consciente da dificuldade que iria ter em encaixar-se, juntamente com o meu "muro", no banco de trás da viatura, mas ele era elegante e cabia, seguramente, melhor do que eu.

Convém aqui fazer uma breve referência ao facto do Dr. Homero Rocha ter alguma insuficiência visual (obviamente corrigida com óculos de elevada graduação) pelo que adoptava, na condução nocturna, (ainda) mais precaução do que na respectiva condução diurna. Quer dizer que as estradas dessa época aliadas a tal facto fizeram com que chegássemos ao Porto por volta das 7 horas da manhã (tínhamos saído entre as 2 horas e as 2 horas e meia da Figueira da Foz). Eu viajava na frente, no chamado lugar do "pendura", e cedo me apercebi do cansaço acumulado pelo nosso "motorista". Sendo assim, passei toda a viagem em permanente diálogo com ele, a fim de garantir que o mantinha bem acordado.

O Ivo, que, no arranque da viagem, participava na nossa conversa, cedo abandonou a mesma e, aconchegando-se no banco traseiro atrás do meu "muro", adormeceu, deixando-me só na importante missão de manter o Dr. Homero Rocha bem desperto. A certa altura eu reparei nesse facto e disse:

- Ó Dr. Homero, o Ivo já dorme profundamente...

De imediato, o meu interlocutor respondeu:

- Ó Jomaguy, eu até já me tinha esquecido que o Ivo viajava connosco!...

E o Ivo lá acordou... quando chegamos ao Porto e fizemos a primeira paragem para descarga de material. Foi precisamente à porta da minha residência. Começámos a descarga pelas diversas peças do meu "muro" e, a certa altura, o Ivo retirou do carro uma pequena mala e colocou-ma à porta, pensando que era minha. Imediatamente lhe disse que aquela mala não é minha, o Dr. Homero Rocha também não reconheceu a mala como sendo sua e, obviamente também não era do Ivo. Conclusão: na confusão de malas e materiais que havia nos bastidores tínhamos trazido para o Porto uma mala que não era de nenhum de nós!

Abriu-se ali mesmo a mala e, pelo respectivo conteúdo, percebeu-se, de imediato, que era o material do espectáculo do SERIP. O Dr. Homero Rocha prontificou-se a ficar com a mala e contactar o SERIP para ver a melhor maneira de lha fazer chegar às mãos. Soube depois que o SERIP andou toda a noite às voltas nos bastidores e camarins do Casino da Figueira da Foz à procura do seu material, pois ia para o estrangeiro cumprir um contrato de actuações e, sem o material, nada feito.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A FISM de Paris.
Nota de sinal + : O Festival da Figueira.
Nota de sinal - : A pouca assiduidade nas reuniões semanais do CIF. 

sábado, 22 de janeiro de 2022

1973 - ANO UM (Parte 1)

 

A MINHA PRIMEIRA FISM

O ano de 1973 ficou marcado na minha memória pela presença na FISM de Paris. Acho que muitos mágicos partilharão comigo o seguinte pensamento: a primeira FISM é inolvidável! Para mim ainda terá sido mais, pois nunca havia participado em nenhum congresso ou festival mágico.

A ida a tão importante congresso mágico foi rodeada de alguma peripécias que irei partilhar convosco. Em primeiro lugar convém notar que vivíamos num período político onde pontificava a ditadura do regime do Estado Novo. Embora Marcelo Caetano tivesse criado alguma abertura com a chamada "primavera marcelista" continuava a existir guerra colonial, para onde eram enviados os mancebos alistados no SMO (Serviço Militar Obrigatório).

Era um tempo em que muitos mancebos se escapavam ao cumprimento da prestação do SMO, emigrando "a salto" para países a Europa central, nomeadamente França. No entanto o governo permitia, a quem estivesse envolvido em estudos universitários, adiar a respectiva incorporação no SMO até concluir o respectivo curso superior, desde que tal conclusão acontecesse até o "adiado" completar uma determinada idade (creio que 25 ou 26 anos).

Nesse tempo ainda não havia UE (União Europeia), pelo que era necessário obter um passaporte para viajar. Naturalmente que era muito difícil ser atribuído um passaporte a um mancebo de 18 anos que queria viajar para França. Mas, com recurso a um compromisso pessoal do meu Pai, assegurando que eu regressaria após o Congresso FISM, lá consegui que me atribuíssem um passaporte de validade reduzida, quando o normal era uma validade de 5 anos.


Mas, mesmo após a resolução deste problema, outra situação poderia inviabilizar a minha viagem a Paris. As datas em que iria decorrer a FISM de Paris eram também datas em que decorreriam os exames universitários e uma das exigências de meu Pai relativamente às férias mágicas em Paris era a seguinte: eu não poderia prejudicar os meus estudos com tal viagem. Sendo assim aguardei a marcação de exames, sabendo que só poderia ir a Paris se o exame marcado para as datas da FISM fosse precisamente a disciplina a que havia dispensado de exame... E foi isso que aconteceu!... Claro que dei pulos de júbilo quando vi essa feliz coincidência.

A viagem para Paris foi feita de comboio e quem tratou de a organizar foi o Coimbra pois já tinha experiência de anteriores idas a Paris com grupos do Instituto Francês. Além dos quatro mágicos (DE ROCK, JOFERK, JOMAGUY e MACOS) o grupo integrou a Cristina (esposa e partenaire do JOFERK) e mais alguns amigos do Coimbra que iam passar uma semana de férias a Paris. Apesar de viajarmos nas carruagens ditas "couchettes" não deu para dormir o suficiente pois a expectativa de ir assistir a uma FISM a par do bom convívio entre todos não o permitiram. E também não deu sequer para abrir a "sebenta" para estudar para o exame que me esperava três dias após o regresso de Paris.

O programa da FISM 1973 (cuja capa está reproduzida acima) estava repleto de momentos que se revelariam inolvidáveis para um neófito em tais andanças, que nunca tinha sequer assistido a uma simples conferência mágica. E relativamente a conferências a FISM de Paris apresentou inúmeros "pesos pesados" da Arte Mágica, como por exemplo: FLIP, LIEBENOW, GEOFFREY BUCKINGHAM, NIC NIBERCO e DICK ZIMMERMANN. Em todas elas aprendi algo que me durou para a "vida mágica", mas destacaria como sendo as mais importantes para a minha aprendizagem mágica as conferências de Jean Merlin e Fred Kaps. Assistir à actuação de FRED KAPS numa das galas foi algo de muitíssimo especial e "beber" os seus ensinamentos transmitidos na conferência que proferiu foi mesmo a "cereja no topo do bolo". Ainda hoje constitui um dos meus "pequenos tesouros mágicos" as notas de conferência que adquiri e que ele, gentilmente, autografou,

A par das actuações primorosas de muitos convidados (SAMSON, SILVAN, TOPPER MARTYN, ALI BONGO, SHIMADA e OMAR PASHA foram alguns deles), tive a oportunidade de assistir às exibições de concorrentes (muitos deles de grande qualidade) com ideias e apresentações cénicas inovadoras e que rompiam com o modelo mais tradicional do estereótipo de um mágico. Direi que tais actuações como que ampliaram largamente a minha perspectiva da Arte Mágica.

Os Congressos FISM têm sempre uma componente social com um jantar de gala. Desta minha primeira FISM não esqueço a recepção que tivemos no Palácio de Versalhes com almoço na "Orangerie do Palácio", em que, ao entrar, tivemos direito a ser anunciados com o toque de trombetas à boa maneira das recepções da realeza. A comida (variadíssima) e bebida à discrição que nos esperavam constituíram um lauto banquete que proporcionou sadios momentos de descontracção e convívio.

Um dos focos de bastante interesse nos grandes Festivais e Congressos de Magia é a respectiva Feira Mágica. Naturalmente que a FISM não é excepção. Nesta minha primeira FISM, como estudante, as poupanças da minha mesada não deram para grandes flostrias. No entanto, uma das aquisições que fiz viria a ser fundamental na minha aprendizagem da manipulação de cigarros que, anos mais tarde, iria integrar uma das minhas rotinas mágicas. Refiro-me ao livro "Enciclopédie des Tours de Cigarettes" da autoria de Keith Clark.

Uma das memórias que tenho desse tempo é a da fraca participação dos associados do CIF nas respectivas reuniões semanais. Apenas os 4 elementos acima referidos que se deslocaram a Paris e o Sr. João Marques Pinto eram assíduos frequentadores das mesmas. No entanto nas primeiras reuniões agendadas pós-FISM o CIF registou uma afluência que eu, até aí, nunca tinha visto. Essa situação foi por mim caricaturada com o cartoon que seguidamente reproduzo.

NOTA FINAL: Amanhã publicarei um novo post em que partilharei outras memórias deste ano.