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sábado, 30 de julho de 2022

2000 - ANO VINTE E OITO (Parte 1)


 O ESPECTÁCULO DE DAVID COPPERFIELD...

O último ano do século passado (que, curiosamente, é também o último ano do milénio passado...) trouxe muita e boa magia a Lisboa. Deixarei para o post que colocarei amanhã o assunto FISM 2000, que teve o seu quartel-general no Centro Cultural de Belém, e irei abordar neste o espectáculo de DAVID COPPERFIELD que realizou uma curta temporada no Pavilhão Atlântico.

Mal foi anunciada tal temporada, tratei de adquirir três bilhetes para ir com a Fátima e o Helder a Lisboa assistir a um desses espectáculos. Para permitir uma deslocação confortável de ida e volta no mesmo dia escolhemos a primeira sessão (15 horas) de sábado 17 de Junho, que o bilhete reproduzido documenta.

Acontece que, já depois de ter adquirido tais bilhetes, verifiquei que a TV Guia dava apoio à divulgação do espectáculo de COPPERFIELD, realizando um passatempo entre os seus leitores. Tanto quando me lembro esse passatempo era constituído por duas perguntas que estavam formuladas, mais ou menos, nos seguintes termos:

1 - Quem gostaria que DAVID COPPERFIELD fizesse desaparecer e porquê?

2 - Gostaria que DAVID COPPERFIELD o fizesse desaparecer? Justifique.

Ora, na época, a relação entre Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho era um tema muito badalado nas revistas da imprensa cor-de-rosa, merecendo, quase semanalmente, destaque na capa de uma ou mais dessas revistas. Por isso decidi glosar tal tema com as respostas seguintes (Nota: se não foi exactamente esta a redacção das respostas, o teor das mesmas transmitia as ideias seguidamente expressas):

1 - Gostaria que fizesse desaparecer o Manuel Maria Carrilho para fazer um favor à Bárbara Guimarães. (Nota: uma resposta que, na altura, era meramente humorística revela, passados 22 anos, um "assustador" lado premonitório

2 - Sim, gostaria que me fizesse desaparecer pois não tenho esperança de merecer os favores da Bárbara Guimarães.

E não é que fui o premiado!... Por isso tive direito a dois bilhetes para a segunda sessão (creio que se iniciou às 18h30m) e convite para participar num dos efeitos mágicos apresentado por DAVID COPPERFIELD no seu espectáculo: aquele em que ele fazia desaparecer 13 espectadores em palco!

Em face deste prémio, levei comigo a Lisboa os meus cunhados UL-DE-KAR e FERKAR que juntamente com o HELDER assistiram ao espectáculo das 15 horas, enquanto eu e a Fátima "fazíamos horas" para assistir à 2ª sessão, na qual eu iria "desaparecer"... Esse "desaparecimento" iria ser notícia na TV Guia de 30 de Junho, conforme mostra o seguinte recorte.


O espectáculo de COPPERFIELD foi, naturalmente, muito bom, mas participar numa das ilusões foi mesmo "a cereja no topo do bolo". Enfim foi um momento que guardo nas minhas memórias emocionais a par daquele que já anteriormente relatei e que foi vivido na FISM 1991 quando, por breves instantes, segurei na lâmpada de HARRY BLACKSTONE Jr.

Obviamente não vou revelar como "desapareci" acompanhado por mais 12 espectadores escolhidos ao acaso. Em primeiro lugar porque não seria eticamente correcto e em segundo lugar porque, antes do espectáculo, assinei um compromisso escrito para não o fazer. Dado que os restantes espectadores que "desapareceram" foram seleccionados aleatoriamente por um balão, nenhum deles tinha assinado previamente idêntico compromisso. Creio que o facto de eu ter sido seleccionado através de um orgão de comunicação social, obrigou o COPPERFIELD a cuidados extra não fosse o caso do passatempo da TV Guia ser um mero expediente para tal publicação meter um jornalista dentro do espectáculo, e, posteriormente, fazer a revelação bombástica de como tal ilusão era concretizada.

No final do espectáculo, COPPERFIELD veio pessoalmente agradecer a nossa colaboração (oferecendo a fotografia autografada que inicia este post) e pedir o nosso sigilo quanto ao método utilizado. Gostei particularmente da maneira como ele sugeriu algumas descrições que as pessoas podiam fazer aos amigos e familiares que, indubitavelmente, iriam querer saber como tudo tinha sucedido. A preocupação revelada quando ao facto de não fazermos a saída para o exterior todos ao mesmo tempo foi mais um ponto que me mostrou (se tal fosse necessário) como, nas grandes produções, tudo está pensado ao pormenor.

Enquanto eu assistia ao espectáculo o Helder, na companhia dos tios e do FRED ALAN (que, coincidentemente tinha ido a Lisboa ver o mesmo espectáculo), andou a deambular pelas cercanias do Pavilhão Atlântico. E nessas deambulações, os quatro tiveram um verdadeira experiência mágica que quase parecia suplantar o espectáculo de COPPERFIELD...

Quando acabou o espectáculo e após ser revertido o meu "desaparecimento", eu e a Fátima reunimo-nos com eles para comer qualquer coisita antes de arrancar de regresso ao Porto. E é aí que me apercebo que algo se tinha passado... algo que ninguém parecia querer contar!... O Helder mantinha-se "sisudo", mas os tios, volta e meia, lançavam risadas verdadeiramente suspeitas. Quase a acabar a breve refeição lá consegui arrancar a história do que se tinha passado.

Nas suas deambulações tinham deparado com um "animador de rua" que possuía um boneco feito em papel, o qual dançava sempre que ele ligava o rádio portátil e o som da música estimulava a veia dançarina do boneco. Claro que, ao ver tal performance, a primeira ideia que surgiu aos mágicos ali presentes foi que a razão da dança estava na existência de um fio manipulado pelo dono do boneco. No entanto nenhum fio era visível, qualquer que fosse o lado em que se encontravam a observar o boneco dançarino. E até houve quem se deitasse no chão a espreitar!

Questionado o "animador de rua" quanto à razão da dança protagonizada pelo boneco, apenas conseguiram arrancar-lhe uma resposta repetitiva: "É a música... A culpa é da música." Por isso, verdadeiramente ilusionados de uma maneira que COPPERFIELD não conseguira fazer, decidiram comprar um boneco ao homem. O HELDER comprou um, o UL-DE-KAR comprou outro e o FRED ALAN comprou dois, com medo que um se pudesse estragar rapidamente.

Claro que, ao abrir o saco plástico onde vinha o boneco, perceberam que a razão da dança era mesmo um fio finíssimo. Por isso, ficaram com uma grande cachola, por não terem acreditado na sua própria intuição quanto ao modus operandi do boneco. Mas convém acrescentar que o "animador de rua" não os estava a enganar ao dizer que a culpa era da música. Como o fio era preso na ponta da antena do rádio portátil, a música a tocar transmitia vibrações à antena e eram essas vibrações que faziam dançar o boneco.

Ligada intrinsecamente ao espectáculo de DAVID COPPERFIELD ainda tenho mais uma memória para partilhar. Na segunda-feira seguinte, por volta das 11 horas, sou surpreendido, no escritório onde trabalhava, por um telefonema do ANORK. Ora, naquele tempo, eu ainda não tinha telemóvel (até porque ainda era um gadget pouco comum e excessivamente caro) e, por outro lado, tinha a certeza que nunca lhe havia facultado o conhecimento do meu número telefónico fixo do trabalho. Mas rapidamente fiquei a perceber que ele ligara para minha casa e, face à urgência que ele tinha em me contactar, a Fátima facultara tal informação.

E qual era a urgência do ANORK em falar comigo? Depois de dizer que, no sábado anterior, gostara muito de me ver no palco do Pavilhão Atlântico, mostrou imediatamente ao que vinha: queria saber como funcionava o truque da desaparição dos 13 espectadores que vira o COPPERFIELD apresentar e no qual eu tinha participado. Claro que me mantive fiel ao compromisso assumido e respondi, de uma forma cordial (mas firme) que qualquer mágico conhecedor como ele era, conseguia, rapidamente, encontrar três ou quatro soluções para realizar aquele truque e que, de certeza, a solução implementada pelo COPPERFIELD era uma dessas.


... E ALGUNS ESPECTÁCULOS DO JOMAGUY

Em 29 de Janeiro participei na Gala de São João Bosco (CIF) como tantas outras vezes. Apenas refiro esta actuação em particular, pois nela, em vez da minha habitual rotina "Peixe cortado e recomposto" apresentei "Girafa cortada e recomposta" numa crítica bem explícita a quem me havia copiado a rotina do peixe.

Em 21 de Março actuei num jantar promovido pelo Clube Portuense. Apenas refiro esta actuação pois ela foi fruto de um cartão de visita que, sete anos antes, tinha entregue a um cliente numa das minhas actuações numa casa de fado. Este contrato apenas veio confirmar uma ideia que sempre esteve presente em mim: um cartão de visita "diferente" (como o que imagem acima reproduz) é algo que as pessoas guardam durante anos.

Em Junho, participei na 3ª edição dos "Encuentros La Barranca". Em Julho e Agosto voltei a realizar diversas actuações como parte integrante da animação a bordo do Paquete Funchal. 

Também foi em 2020 que adquiri o livro (imprescindível para qualquer mágico) "La Magia de Ascanio - La concepción Estrutural de la Magia" e que faleceu o Sr. EDUARDO FRANCO. 


POST SCRIPTUM (Em 23 de Abril de 2024)

Quando redigi este post, não consegui encontrar os recortes da TVGuia que ilustrassem as respostas textuais que me tinham permitido ser o escolhido como vencedor do passatempo supracitado.

Mas, como “o que é vivo sempre aparece”, hoje encontrei, na minha papelada, um recorte da TVGuia nº 1116 (relativa à semana de 23 a 29 de Junho de 2000), o qual me permite documentar mais pormenorizadamente o assunto em causa. Para tal aqui deixo duas imagens.




domingo, 26 de junho de 2022

1995 - ANO VINTE E TRÊS (Parte 2)

 

ACTUAÇÕES, ETC.

Uma das minhas actuações que relembro, como se fosse hoje, foi a que integrou o espectáculo MAGIA NA PRAÇA, que o CIF promoveu num palco instalado em plena Praça General Humberto Delgado, mesmo em frente à Câmara Municipal do Porto. E relembro porque foi a primeira vez que apresentei o programa que designei "Rotina do escocês". Ora, a certa altura da rotina, o técnico de som tinha que substituir uma cassete por outra, mas não respeitou o combinado. De repente, estava eu nas minhas evoluções na periferia do palco e, sempre que passava perto dos bastidores, gritava para dentro:"Mudem a cassete". Por fim, lá consegui ser ouvido e pude arrancar para o final da rotina.

Neste espectáculo MAGIA NA PRAÇA (que foi fruto do espirito empreendedor de JOFERK) também actuou o grupo SKORPIUS, que apresentou um número diferente daquele com que se tinha estreado. Desta vez apresentámos uma CABINE ESPÍRITA, do género daquela com a qual trabalháramos eu e o UL-DE-KAR, 20 anos antes, no espectáculo de JOHN CALVERT. No entanto, em termos técnicos, optámos por uma solução bastante diferente.

Mais uma vez, passei parte das férias embarcado no navio FUNCHAL como parte do respectivo staff de animação.

Em Outubro a revista TV7DIAS incluiu um pequeno dossier sobre Ilusionismo e eu fui um dos entrevistados para tal. Convenhamos que o título "Um pioneiro da TV" é exagerado, pois pioneiros da TV em Portugal terão sido SIR BLACK e CONDE D'AGUILAR que, pelo que sei, foram os ilusionistas que aparecerem nas primeiras emissões da RTP. 

No entanto aquele "pioneiro" pode ser entendido como relativo à apresentação de uma rotina de "Magia de Close-up" num programa prime time da TV em Portugal, pois, tanto quanto é do meu conhecimento, a minha intervenção no programa "O Foguete" (do qual foi obtida a fotografia que documenta a breve entrevista) terá tido essa dose de "pioneirismo".

Em Dezembro iniciou-se a publicação de O MÁGICO. Esta revista correspondeu a uma nova vida do projecto "REVISTA DO CMP", tendo MAIK MAGIC colocado à frente da nova publicação um Conselho Editorial constituído por Dr. Jorge Teixeira e SAIUR. Com a garantia de qualidade da revista que esta "dupla" dava não tive qualquer rebuço em aceitar o convite para colaborar. E assim passei a ser o responsável pela secção "Temas de Close-up" cujo cabeçalho reproduzi acima.

Na FOLHA MÁGICA do CIF de Dezembro foi anunciada a atribuição de três galardões "Mágico do Ano", tendo eu sido contemplado com o prémio na área de Close-up.

Também foi em Dezembro que LUÍS DE MATOS "adivinhou" os números da chave do Totoloto, numa notável operação de marketing para lançamento do seu primeiro livro, O MUNDO MÁGICO DE LUÍS DE MATOS. Para espanto de muita gente, estive presente no Edifício Chiado (Coimbra) no momento da revelação da previsão efectuada.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O ESTORILMÁGICO - CASCAIS 95
Nota de sinal + : O reaparecimento da FOLHA MÁGICA do CIF
Nota de sinal + : O início da publicação de O MÁGICO.

sábado, 4 de junho de 2022

1992 - ANO VINTE




ARRANQUE DE MAIS FESTIVAIS

Não tendo estado presente em nenhum deles, acho importante registar que 1992 foi o ano de arranque do "MAGICVALONGO - FESTIVAL INTERNACIONAL DE ILUSIONISMO" (em Abril) e do "FESTIVAL INTERNACIONAL DE MAGIA DE COIMBRA" (em Julho). Enquanto o primeiro teve, a partir daí, programação todos os anos e, portanto, completou, em 2021, a sua 30ª edição, o segundo sofreu um hiato de seis anos e a sua 2ª edição (rebaptizada como ENCONTROS MÁGICOS) só viria a realizar-se em 1998.

Por isso, não se percebe como, mais recentemente, as comunicações de imprensa se referem aos ENCONTROS MÁGICOS DE COIMBRA como o mais antigo dos festivais mágicos portugueses. Nesta caso não é "basta fazer as contas" (como alguém disse...), mas sim "basta olhar para as datas". 

Numa coisa são ambos os festivais semelhantes: a mudança de organizadores entre a primeira e segunda edições do evento. No caso do MAGICVALONGO desapareceu da organização o "CIF - Clube Ilusionista Fenianos" e apareceu, em sua substituição, uma Comissão Organizadora constituída por sócios do CIF. No caso dos ENCONTROS MÁGICOS, a organização passou a ser da responsabilidade de LUÍS DE MATOS, até porque, lamentavelmente, HORTINY já não estava entre nós.

Entretanto DICK MARVEL organizou o 2º SEMINÁRIO PORTUGUÊS DE ILUSIONISMO / 3º FESTIVAL DE MAGIA DE RUA, que teve como convidado uma estrela mundial da Magia: o britânico PAUL DANIELS. Foi excelente poder vê-lo actuar ao vivo. E claro que fui solicitado a servir de seu intérprete.

Também a Convenção API-92 proporcionou excelentes momentos de Magia, protagonizados por TOPAS, FINN JON, JEAN PHLIPPE, TONY CLARK, VITO LUPO e ARMANDO GOMEZ.


NO PAPEL DE GHOST-WRITER

Nunca me imaginei no papel de "escritor-fantasma", mas isso acabou por suceder por força dum pedido do meu cunhado UL-DE-KAR, a que não podia dar uma "nega". 

Na altura ele trabalhava como técnico na RANK XEROX e o seu envolvimento no Ilusionismo era conhecido de todos os colegas. Por isso quando começou a ser publicada "O XEROGRÁFICO" (revista interna da empresa destinada aos colaboradores), logo o abordaram para que nela prestasse colaboração, escrevendo sobre Ilusionismo. E ele, como é um bocadinho avesso à escrita, tratou de me "cravar" para esse trabalho.

Foi assim que, a partir do nº 3 da revista (publicada em Maio deste ano), passou a existir uma secção designada "O XEROMÁGICO" assinada por UL-DE-KAR, mas, na realidade, escrita por JOMAGUY. Esta colaboração iria durar até Outubro de 1993.


DE NOVO NO FUNCHAL E MAIS

Nas férias deste ano voltei a integrar o staff de animação do navio FUNCHAL, desta vez num cruzeiro realizado, maioritariamente, com passageiros portugueses. 

Em 16 de Setembro foi emitido, na RTP 1, o primeiro programa "ISTO É MAGIA" da autoria de LUÍS DE MATOS (pode ser visto aqui). Esta primeira série de "ISTO É MAGIA" teve, como convidados, vários ilusionistas portugueses. Curiosamente (ou talvez não...) LUÍS DE MATOS não convidou os dois mágicos portugueses que tinham experiência recente e mais assídua de "enfrentar as câmaras".

Foi criado, por MAIK MAGIC, o CLUBE MÁGICO PORTUGUÊS.


NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O arranque de novos festivais mágicos.
Nota de sinal + : O início da presença regular de Magia nos ecrãs da RTP 1.



sábado, 9 de abril de 2022

1984 - ANO DOZE

 

A MAGIA NA RTP . . .

Em 8 de Março de 1984 foi, finalmente, exibido na RTP 2 o episódio do programa "Nocturno" que incluía a minha participação como convidado. E sublinho "finalmente" pois o mesmo havia sido gravado, nos estúdios da RTP do Monte da Virgem em 18 de Agosto de 1983. Esse programa, além da actuação propriamente dita, também incluiu uma breve entrevista feita no camarim. Aqui está uma parte dela, com a qualidade possível, pois originalmente a gravação foi efectuada num gravador Betamax.

E aqui está a actuação feita nesse mesmo programa.

Na programação da RTP das tardes de domingo existia o programa de entretenimento chamado "A Festa Continua" que era apresentado por Júlio Isidro. Era normal esse programa escolher, em cada semana, um tema diferente para moldar o guião do programa e escolher o respectivos convidados. Por isso, quanto foi anunciado que o programa "A Festa Continua" do dia 15 de Abril seria dedicado ao Ilusionismo, fiquei entusiasmado com a perspectiva de assistir a exibições de bons mágicos. Infelizmente tal não aconteceu e o programa foi uma autêntica "palhaçada" (no mau sentido).

Nessa altura um grupo de ilusionistas (Eng. António Cândido, JOFERK, UL-DE-KAR, ZÉPI, JOMAGUY e FERKAR) havia formado um "Círculo Mágico" com o intuito de desenvolver trabalho de pesquisa na área da Magia de Close-up. Éramos todos sócios do CIF, mas o funcionamento do "Círculo Mágico" não se integrava na programação das actividades do CIF. Perante a abordagem que havia sido dada à nossa Arte, o "Círculo Mágico" escreveu a Júlio Isidro uma carta a repudiar a mesma. 

Dessa carta foi dado conhecimento ao Conselho de Gerência da RTP, às entidades mágicas portuguesas e a diversos orgãos de comunicação social e nela se escreveu o seguinte:

"De facto, o senhor, no seu programa, serviu-se do Ilusionismo sem, minimamente, ter servido o Ilusionismo e uma Arte não deve ser vilipendiada de tal forma. Não! Não se trata de falta de humor da nossa parte, pois até encaramos como lógicas as brincadeiras que, sobre o Ilusionismo, decidiu apresentar; mas, simplesmente, entendemos que, a par dessas brincadeiras, deveria privilegiar a apresentação de Ilusionismo (do autêntico) em prejuízo, por exemplo, da Música, o que seria, naturalmente, um benefício para o contexto do programa. Mas nem uma só apresentação de um ilusionista houve!... E porquê? Naturalmente, só o senhor o saberá... Mas o seu arrojo foi mais longe, utilizando aparelhos de Ilusionismo "para fazer uns truques", revelando, por vezes, devido à sua falta de preparação (perfeitamente adequada a um espectáculo inter-sócios de uma colectividade da província), a forma de os executar.
Por tudo o que atrás expomos, queremos manifestar-lhe o nosso mais profundo repúdio, como ilusionistas e como portugueses espectadores de televisão dos anos 80.
O resultado de formas de agir como a sua (enquanto responsável de “A Festa Continua") é traduzido pelo facto do Ilusionismo, ainda hoje, ser considerado como "arte menor", em Portugal, enquanto, em muitos outros países, já atingiu a maioridade."
(sic)


Nós não fomos os únicos a levantar a voz contra tal "palhaçada". O mesmo fez JÓNIO na sua colaboração nas páginas da folha informativa de "HORTINY MÃOS MÁGICAS ESTÚDIO". Seguidamente apresento, com a devida vénia, a reprodução de tal escrito.


Felizmente a RTP viria, ainda em 1984, a dar um tratamento bem diferente à Arte Mágica pela mão de Carlos Cruz no concurso "Um, Dois, Três" transmitido em 20 de Novembro. Aí tivemos a oportunidade de ver as mais diversificadas actuações de mágicos portugueses (JODIVIL E MARGOT, SERAVAT, DIOGO, MARIA JOÃO TAVARES, FRED ALAN e PAULO VILHENA) e uma paródia ao Ilusionismo feita com mestria pelo saudoso actor Carlos Miguel "Fininho". Claro que o facto da produção do programa ter tido, como assessor, um mágico profundamente conhecedor (JODIVIL) muito ajudou a não cair na tentação de apresentar uma "palhaçada" similar à de "A Festa Continua". Pena foi que a demora nas gravações "provocasse" num dos números a necessidade, na edição, de abusar na inclusão de imagens do público.

Aqui se relembra a intervenção do "Fininho".


. . .  E O RESTO

O MagicPorto CIF 84 permitiu-me voltar a apreciar uma conferência de CAMILO VASQUEZ. É curioso verificar que há mágicos cujas conferências sempre nos proporcionam novos ensinamentos, mesmo quando a elas já havíamos assistido anteriormente. CAMILO VASQUEZ é um deles. Também estive presente na Convenção API  que se revelou uma excelente jornada de convívio com boa Magia.

Em termos de novas aprendizagens também quero referir os livrinhos "Los Cinco Puntos Mágicos" (de JUAN TAMARIZ) e "Psicologia del Empalme" (de ARTURO DE ASCANIO), os quais, sendo "livrinhos" no que se refere à respectiva envergadura física, poderão ser considerados "grandes tratados" sobre as matérias que abordam.


Neste ano continuei a diversificar os locais das minhas actuações, procurando, sempre que possível,  divulgar a Magia de Close-up com intervenções de tal género mágico, como foi o caso da "Discoteca Pub Gatsby". E claro, quando se tem um nome artístico do género "JOMAGUY", corre-se sempre o risco de o ver escrito das maneiras mais variadas.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A série de programas "Nocturno" (RTP 2) e o "Concurso Um, Dois, Três" (RTP 1) que proporcionaram aos telespectadores diversas actuações de mágicos.
Nota de sinal - : O programa "A Festa Continua" dedicado ao Ilusionismo.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

1977 - ANO CINCO (Parte 1)

 

OS MÁGICOS

Este foi o nome do espectáculo público integrado nas comemorações de S. João Bosco levado a cabo pelo CIF no dia 14 de Fevereiro no Teatro Sá da Bandeira. Foi uma iniciativa louvável da Secção de Ilusionismo do Clube Fenianos Portuenses que pretendeu, com ela, aproximar a Magia dum público mais abrangente daquele que frequentava, por norma, os espectáculos realizados na sede do clube. A crítica publicada em 16 de Fevereiro, no jornal "O Comércio do Porto" foi a que, seguidamente, reproduzo.

Fruto da dinâmica de trabalho que, nessa época, existia no CIF foram criados dois grupos de mágicos para apresentar rotinas de Grandes Ilusões. Juntamente com o UL-DE-KAR formei o grupo SKORPIUS (ao qual também se associou para colaborar o OLIMACK) e preparamos um efeito (A  Decapitação) baseado num dos quadros do espectáculo de JOHN CALVERT em que ambos tínhamos trabalhado. O funcionamento mecânico da ilusão era substancialmente diferente e suficientemente seguro para o OLIMACK arriscar a própria cabeça nele. Ao contrário da apresentação de CALVERT, que era cómico-burlesca, a nossa encenação era "pesada" e o público tinha direito a ver sangue jorrar durante o corte da cabeça (Nota: não só ver como também sentir alguns salpicos, como viria a acontecer num espectáculo posterior em que as dimensões do palco obrigaram a uma menor distância relativamente à primeira fila da plateia).

Portanto nesse espectáculo, além de apresentar a minha premiada rotina de manipulação, apresentei (em parceria com UL-DE-KAR), pela primeira vez, um número de Grandes Ilusões. A estreia dessa rotina correu muitíssimo bem e fomos, inclusivamente, elogiados pelo categorizado Roberto (da dupla NICHOLS & HONEY). O que também relembro desse espectáculo foi a ovação espontânea com que fui interrompido quando, durante a rotina de manipulação, realizava o meu  último efeito mágico : o bastão dançarino. Por isso, nessa noite, a rotina ficou um pouco mais curta. Dado o êxito do programa, a empresa do Teatro Sá da Bandeira contratou-nos para realizar uma mini-série de 3 espectáculos num dos fins de semana seguintes.

As comemorações de S. João Bosco não se limitaram a este espectáculo público e tiveram outras actividades realizadas apenas entre os ilusionistas. Uma dessas actividades foi inovadora no ambiente mágico. Tratou-se de um "Rali Paper" realizado nas ruas da cidade do Porto, o qual, além de permitir um salutar convívio entre os participantes também ajudou a divulgar o espectáculo já referido.

Uma das outras actividades integradas nas comemorações de S. João Bosco, foi o almoço convívio realizado num conceituado restaurante situado nos arredores do Porto. No final do repasto houve os tradicionais discursos. Delas, recordo com carinho a intervenção do saudoso LE-A-FAR, pois incluiu uma situação que ficou bem gravada na minha memória. Ao finalizar a sua intervenção, LE-A-FAR informou que, pouco tempo antes, tinha estado no Brasil e era portador de diplomas "Magirama" que lhe tinham sido entregues pelo CONDE RAMSÉS para homenagear alguns mágicos portugueses que se haviam distinguido em escritos sobre Ilusionismo. Mas quando entregou, a um dos homenageados, um diploma sem nome, logo se percebeu que os diplomas tinham vindo do Brasil apenas com a assinatura de CONDE RAMSÉS e fora a escolha de LE-A-FAR que determinara a "lista de homenageados". Isto permitiu-me aferir a dimensão correcta de certas distinções atribuídas no país irmão que, nas minhas leituras, tinha visto referenciadas.


O MEU PRIMEIRO "HECKLER"

1977 foi também o ano em que terminei o meu curso de Engenharia de Telecomunicações. Por isso, em data que não consigo precisar, realizou-se o habitual "Jantar de Fim de Curso". Se a data não relembro, o local ainda está bem presente na minha memória: a "Farmácia Campos" em Matosinhos! E já agora convém referir que o restaurante tinha, na altura, um nome pelo qual toda a gente o conhecia: "O Farta Brutos".

Embora eu não andasse pelos cantos da Faculdade com um baralho na mão a "impingir truques" aos colegas, todos eles conheciam a minha ligação ao Ilusionismo. Por isso era inevitável que, no final do repasto, me iriam solicitar uma actuação improvisada... para a qual eu ia, obviamente, preparado.

Nessa noite, um dos efeitos que decidi apresentar foi uma rotina "Fora Deste Mundo". E foi aqui que tive o azar de fazer uma má escolha do espectador que iria separar as cartas entre pretas e vermelhas pois escolhi um "brincalhão" (Nota: creio que esse "brincalhão" foi o Pedro Sampaio). E o que fez ele? Escolher sempre a mesma cor!... Claro que a rotina terminou (e bem!) quando atingi metade do baralho, mas, os mágicos percebem que teria sido muito mais impactante se usasse todo o baralho.

Naturalmente que são experiências deste tipo que nos fazem crescer. Por isso, na época, deixei de apresentar essa rotina até encontrar uma solução que fosse "à prova de brincalhão". Encontraria tal solução alguns meses depois e pude voltar a apresentar, com confiança, tal rotina. A solução que encontrei faz parte integrante do efeito "Out of this water" descrito pelo meu filho (HELDER GUIMARÃES) na sua colaboração para o livro "BEST OF ALL WORLDS".

Amanhã haverá novo post referente a 1977.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

1975 - ANO TRÊS (Parte 2)

 


JOHN CALVERT E O ESPECTÁCULO MAGICARAMA

Em meados deste ano atracou no Porto o iate MAGIC CASTLE, propriedade do ilusionista JOHN CALVERT, que nele se fazia transportar juntamente com a sua esposa (e partenaire) TAMMY e o seu empregado Henry.  A bordo também vinha todo o equipamento do seu grande espectáculo MAGICARAMA, o qual podia ser apresentado em qualquer cidade costeira em que decidisse parar durante as suas viagens marítimas, bastando, para tal, contratar alguns ajudantes locais.

Foi precisamente isso que aconteceu no Porto. O seu primeiro contacto foi com o JOFERK, o qual o apresentou aos mágicos do CIF. Desde logo ele manifestou a vontade de apresentar o seu espectáculo na nossa cidade, pelo que foi encaminhado para a sala de espectáculos que seria adequada para o efeito e que já tinha alguma tradição de receber espectáculos de ilusionismo (o último havia sido em 1972, com RICHIARDI Jr. como cabeça de cartaz): o Teatro Sá da Bandeira.

Dado que eu tinha um certo à-vontade na língua inglesa disponibilizei-me para ser o seu tradutor na abordagem à gerência do Teatro Sá da Bandeira. Depois do "negócio" ter sido fechado, CALVERT tinha que completar o elenco com "mão-de-obra" local. Ele tentou contratar os quatro assistentes masculinos de que necessitava no âmbito dos ilusionistas jovens do CIF, tendo conseguido apenas três: eu próprio, Raul de Carvalho "UL-DE-KAR" e José Ribeiro "JOY". Nove das dez assistentes femininas que necessitava foram contratadas num casting realizado na sequência de um anúncio publicado na imprensa. Observar tal casting e perceber as razões de CALVERT para optar por uma assistente em detrimento de outra foi uma das muitas lições que a minha temporada junto do grande ilusionista americano me proporcionou. Perceber como se monta um grande espectáculo teatral de duas horas foi outra.

O espectáculo não foi um estrondoso êxito e o facto de ter decorrido em pleno verão também não o favoreceu, mas direi que a grande maioria dos espectadores que a ele assistiram saíram da sala satisfeitos e com a noção de terem passado duas horas de bom entretenimento. Claro que não se pode agradar a toda a gente... Por isso a crítica escrita por CARDINAL na sua colaboração semanal nas páginas do JN, não foi a melhor. E, nessa crítica, a minha colaboração também foi questionada.

Mesmo antes de ler o texto de CARDINAL, já tinha percebido que fazia alguma confusão a certas mentalidades do nosso meio mágico que eu, tendo obtido poucos meses antes o 1º Prémio de Manipulação no Festival Mágico da Figueira da Foz, aceitasse uma simples posição de ajudante num espectáculo de Ilusionismo. No entanto, não me "caíram os parentes na lama" por fazê-lo e proporcionei a mim mesmo, numa fase inicial da minha carreira, a possibilidade de obter um conjunto de valiosos ensinamentos que, de outra maneira, demoraria vários anos a conseguir.

Entre os diversos quadros do espectáculo nos quais participei, destaco "O Boudoir Feminino" que viria, anos mais tarde a servir de inspiração para o número final da rotina com a qual o grupo DESERTO & COMPANHIA viria a conquistar um 3º lugar no ESTORILMÁGICO CASCAIS 97. É precisamente desse quadro a fotografia seguinte.



Também um outro quadro ("Histórias por Frankenstein") me merece destaque pois serviu de base para o desenvolvimento da rotina "A Decapitação" do grupo SKORPIUS.

Além do tempo de ensaios e actuações no espectáculo MAGICARAMA, passei muitas horas em conversas com CALVERT no seu iate (atracado na Ribeira do Porto), nas quais tentei absorver o maior número possível de ensinamentos do showman americano. Dele guardo carinhosamente uma gigantesca brochura de promoção artística (com dedicatória) e a fotografia (também com dedicatória) que, seguidamente, reproduzo.



Uma gravação do espectáculo MAGICARAMA efectuada 10 anos mais tarde (quando Calvert já tinha 84 anos de idade) pode ser vista aqui:


E, porque o ano de 1975 é fértil em recordações, tal como prometido, haverá um terceiro post. Será publicado amanhã.