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sábado, 30 de julho de 2022

2000 - ANO VINTE E OITO (Parte 1)


 O ESPECTÁCULO DE DAVID COPPERFIELD...

O último ano do século passado (que, curiosamente, é também o último ano do milénio passado...) trouxe muita e boa magia a Lisboa. Deixarei para o post que colocarei amanhã o assunto FISM 2000, que teve o seu quartel-general no Centro Cultural de Belém, e irei abordar neste o espectáculo de DAVID COPPERFIELD que realizou uma curta temporada no Pavilhão Atlântico.

Mal foi anunciada tal temporada, tratei de adquirir três bilhetes para ir com a Fátima e o Helder a Lisboa assistir a um desses espectáculos. Para permitir uma deslocação confortável de ida e volta no mesmo dia escolhemos a primeira sessão (15 horas) de sábado 17 de Junho, que o bilhete reproduzido documenta.

Acontece que, já depois de ter adquirido tais bilhetes, verifiquei que a TV Guia dava apoio à divulgação do espectáculo de COPPERFIELD, realizando um passatempo entre os seus leitores. Tanto quando me lembro esse passatempo era constituído por duas perguntas que estavam formuladas, mais ou menos, nos seguintes termos:

1 - Quem gostaria que DAVID COPPERFIELD fizesse desaparecer e porquê?

2 - Gostaria que DAVID COPPERFIELD o fizesse desaparecer? Justifique.

Ora, na época, a relação entre Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho era um tema muito badalado nas revistas da imprensa cor-de-rosa, merecendo, quase semanalmente, destaque na capa de uma ou mais dessas revistas. Por isso decidi glosar tal tema com as respostas seguintes (Nota: se não foi exactamente esta a redacção das respostas, o teor das mesmas transmitia as ideias seguidamente expressas):

1 - Gostaria que fizesse desaparecer o Manuel Maria Carrilho para fazer um favor à Bárbara Guimarães. (Nota: uma resposta que, na altura, era meramente humorística revela, passados 22 anos, um "assustador" lado premonitório

2 - Sim, gostaria que me fizesse desaparecer pois não tenho esperança de merecer os favores da Bárbara Guimarães.

E não é que fui o premiado!... Por isso tive direito a dois bilhetes para a segunda sessão (creio que se iniciou às 18h30m) e convite para participar num dos efeitos mágicos apresentado por DAVID COPPERFIELD no seu espectáculo: aquele em que ele fazia desaparecer 13 espectadores em palco!

Em face deste prémio, levei comigo a Lisboa os meus cunhados UL-DE-KAR e FERKAR que juntamente com o HELDER assistiram ao espectáculo das 15 horas, enquanto eu e a Fátima "fazíamos horas" para assistir à 2ª sessão, na qual eu iria "desaparecer"... Esse "desaparecimento" iria ser notícia na TV Guia de 30 de Junho, conforme mostra o seguinte recorte.


O espectáculo de COPPERFIELD foi, naturalmente, muito bom, mas participar numa das ilusões foi mesmo "a cereja no topo do bolo". Enfim foi um momento que guardo nas minhas memórias emocionais a par daquele que já anteriormente relatei e que foi vivido na FISM 1991 quando, por breves instantes, segurei na lâmpada de HARRY BLACKSTONE Jr.

Obviamente não vou revelar como "desapareci" acompanhado por mais 12 espectadores escolhidos ao acaso. Em primeiro lugar porque não seria eticamente correcto e em segundo lugar porque, antes do espectáculo, assinei um compromisso escrito para não o fazer. Dado que os restantes espectadores que "desapareceram" foram seleccionados aleatoriamente por um balão, nenhum deles tinha assinado previamente idêntico compromisso. Creio que o facto de eu ter sido seleccionado através de um orgão de comunicação social, obrigou o COPPERFIELD a cuidados extra não fosse o caso do passatempo da TV Guia ser um mero expediente para tal publicação meter um jornalista dentro do espectáculo, e, posteriormente, fazer a revelação bombástica de como tal ilusão era concretizada.

No final do espectáculo, COPPERFIELD veio pessoalmente agradecer a nossa colaboração (oferecendo a fotografia autografada que inicia este post) e pedir o nosso sigilo quanto ao método utilizado. Gostei particularmente da maneira como ele sugeriu algumas descrições que as pessoas podiam fazer aos amigos e familiares que, indubitavelmente, iriam querer saber como tudo tinha sucedido. A preocupação revelada quando ao facto de não fazermos a saída para o exterior todos ao mesmo tempo foi mais um ponto que me mostrou (se tal fosse necessário) como, nas grandes produções, tudo está pensado ao pormenor.

Enquanto eu assistia ao espectáculo o Helder, na companhia dos tios e do FRED ALAN (que, coincidentemente tinha ido a Lisboa ver o mesmo espectáculo), andou a deambular pelas cercanias do Pavilhão Atlântico. E nessas deambulações, os quatro tiveram um verdadeira experiência mágica que quase parecia suplantar o espectáculo de COPPERFIELD...

Quando acabou o espectáculo e após ser revertido o meu "desaparecimento", eu e a Fátima reunimo-nos com eles para comer qualquer coisita antes de arrancar de regresso ao Porto. E é aí que me apercebo que algo se tinha passado... algo que ninguém parecia querer contar!... O Helder mantinha-se "sisudo", mas os tios, volta e meia, lançavam risadas verdadeiramente suspeitas. Quase a acabar a breve refeição lá consegui arrancar a história do que se tinha passado.

Nas suas deambulações tinham deparado com um "animador de rua" que possuía um boneco feito em papel, o qual dançava sempre que ele ligava o rádio portátil e o som da música estimulava a veia dançarina do boneco. Claro que, ao ver tal performance, a primeira ideia que surgiu aos mágicos ali presentes foi que a razão da dança estava na existência de um fio manipulado pelo dono do boneco. No entanto nenhum fio era visível, qualquer que fosse o lado em que se encontravam a observar o boneco dançarino. E até houve quem se deitasse no chão a espreitar!

Questionado o "animador de rua" quanto à razão da dança protagonizada pelo boneco, apenas conseguiram arrancar-lhe uma resposta repetitiva: "É a música... A culpa é da música." Por isso, verdadeiramente ilusionados de uma maneira que COPPERFIELD não conseguira fazer, decidiram comprar um boneco ao homem. O HELDER comprou um, o UL-DE-KAR comprou outro e o FRED ALAN comprou dois, com medo que um se pudesse estragar rapidamente.

Claro que, ao abrir o saco plástico onde vinha o boneco, perceberam que a razão da dança era mesmo um fio finíssimo. Por isso, ficaram com uma grande cachola, por não terem acreditado na sua própria intuição quanto ao modus operandi do boneco. Mas convém acrescentar que o "animador de rua" não os estava a enganar ao dizer que a culpa era da música. Como o fio era preso na ponta da antena do rádio portátil, a música a tocar transmitia vibrações à antena e eram essas vibrações que faziam dançar o boneco.

Ligada intrinsecamente ao espectáculo de DAVID COPPERFIELD ainda tenho mais uma memória para partilhar. Na segunda-feira seguinte, por volta das 11 horas, sou surpreendido, no escritório onde trabalhava, por um telefonema do ANORK. Ora, naquele tempo, eu ainda não tinha telemóvel (até porque ainda era um gadget pouco comum e excessivamente caro) e, por outro lado, tinha a certeza que nunca lhe havia facultado o conhecimento do meu número telefónico fixo do trabalho. Mas rapidamente fiquei a perceber que ele ligara para minha casa e, face à urgência que ele tinha em me contactar, a Fátima facultara tal informação.

E qual era a urgência do ANORK em falar comigo? Depois de dizer que, no sábado anterior, gostara muito de me ver no palco do Pavilhão Atlântico, mostrou imediatamente ao que vinha: queria saber como funcionava o truque da desaparição dos 13 espectadores que vira o COPPERFIELD apresentar e no qual eu tinha participado. Claro que me mantive fiel ao compromisso assumido e respondi, de uma forma cordial (mas firme) que qualquer mágico conhecedor como ele era, conseguia, rapidamente, encontrar três ou quatro soluções para realizar aquele truque e que, de certeza, a solução implementada pelo COPPERFIELD era uma dessas.


... E ALGUNS ESPECTÁCULOS DO JOMAGUY

Em 29 de Janeiro participei na Gala de São João Bosco (CIF) como tantas outras vezes. Apenas refiro esta actuação em particular, pois nela, em vez da minha habitual rotina "Peixe cortado e recomposto" apresentei "Girafa cortada e recomposta" numa crítica bem explícita a quem me havia copiado a rotina do peixe.

Em 21 de Março actuei num jantar promovido pelo Clube Portuense. Apenas refiro esta actuação pois ela foi fruto de um cartão de visita que, sete anos antes, tinha entregue a um cliente numa das minhas actuações numa casa de fado. Este contrato apenas veio confirmar uma ideia que sempre esteve presente em mim: um cartão de visita "diferente" (como o que imagem acima reproduz) é algo que as pessoas guardam durante anos.

Em Junho, participei na 3ª edição dos "Encuentros La Barranca". Em Julho e Agosto voltei a realizar diversas actuações como parte integrante da animação a bordo do Paquete Funchal. 

Também foi em 2020 que adquiri o livro (imprescindível para qualquer mágico) "La Magia de Ascanio - La concepción Estrutural de la Magia" e que faleceu o Sr. EDUARDO FRANCO. 


POST SCRIPTUM (Em 23 de Abril de 2024)

Quando redigi este post, não consegui encontrar os recortes da TVGuia que ilustrassem as respostas textuais que me tinham permitido ser o escolhido como vencedor do passatempo supracitado.

Mas, como “o que é vivo sempre aparece”, hoje encontrei, na minha papelada, um recorte da TVGuia nº 1116 (relativa à semana de 23 a 29 de Junho de 2000), o qual me permite documentar mais pormenorizadamente o assunto em causa. Para tal aqui deixo duas imagens.




sábado, 18 de junho de 2022

1994 - ANO VINTE E DOIS (Parte 1)


DOIS ESPECTÁCULOS INOLVIDÁVEIS 

O meu interesse no Ilusionismo leva-me a ver bons e maus espectáculos. E aqueles que forem "muito bons" ou "muito maus" irão permanecer, na minha memória, como espectáculos inolvidáveis.

Sempre que algum mágico desconhecido é anunciado, procuro ir assistir à respectiva actuação. Eu sei... Por vezes é tempo perdido, mas outras vezes há boas surpresas. E como diz a velha máxima: com todos se aprende! Com uns, aprende-se o "como se deve fazer" e, com os restantes, aprende-se o "como nunca se deve fazer". Este é o lema da permanente aprendizagem.

Por isso, quando na página 12 da edição do Jornal de Notícias de 17 de Junho de 1994 li a notícia que, seguidamente, reproduzo, logo reservei o dia 25 de Junho para uma deslocação a Coimbra.

Um viagem feita calmamente na tarde de sábado 25 de Junho, com a inevitável paragem na Mealhada para jantar (será que vale a pena referir a ementa?!?!?!), permitiu-me chegar atempadamente à Piscina Olímpica de Coimbra, tomar assento na bancada e aguardar pelo prometido espectáculo.  Infelizmente para o LUÍS RODRIGUES, para o Ilusionismo e, principalmente, para o público presente o espectáculo não foi nada do prometido, saldando-se num rotundo fracasso. Isso mesmo foi patenteado na notícia publicada na edição de 29 de Junho do jornal Público.

Mas o ano de 1994 iria reservar-me um outro espectáculo inolvidável, felizmente, por razões bem distintas. Neste caso tratou-se de um espectáculo de um mágico cujo trabalho eu conhecia bem, mas que nunca tinha tido oportunidade de ver "ao vivo": DAVID COPPERFIELD.

A viagem relâmpago a Paris para ver, em 1 de Outubro, o espectáculo THE MAGIC OF DAVID COPPERFIELD aconteceu por um mero acaso e foi decidida quase em cima da hora. Um belo dia sou surpreendido por um telefonema do Ivo (FRED ALAN), comunicando-me que havia um grupo que iria deslocar-se a Paris para ver o espectáculo do COPPERFIELD e que havia um bilhete a mais (fruto de uma desistência) e perguntando-me se eu estaria interessado em adquiri-lo. Aproveitei a oportunidade, até porque era, nessa altura, imprevisível que DAVID COPPERFIELD pudesse vir a Portugal actuar como viria a acontecer no ano 2000. Aqui fica a reprodução desse "bilhetinho mágico" que me permitiu assistir, pela primeira vez, a um espectáculo "ao vivo" do "Luís de Matos americano".

Amanhã haverá novo post com memórias deste ano.


domingo, 27 de março de 2022

1982 - ANO DEZ (Parte 2)

 


 A FISM DE LAUSANNE

A Fátima acompanhou-me, pela primeira vez, a uma FISM e, como ela ia grávida, poderei dizer que esta foi a primeira FISM a que o Helder "assistiu", mas vendo através do olhos da mãe. Claro que escrevo isto com a certeza que irei provocar muitos sorrisos em quem me lê, mas seja lá por que carga de água for, anos mais tarde, quando questionado sobre quem era o seu mágico preferido, o Helder respondeu: LANCE BURTON. Ora foi precisamente este o mágico galardoado com o Grande Prémio nesta edição da FISM. Coincidência ou memória do tempo de gestação passado em Lausanne?

Das diversas actuações de convidados presentes nas galas deste congresso, recordo PETER PIT (e a sua execução impecável da Dancing Cane, a par dum trabalho perfeito como apresentador de Gala de congresso mágico), BELLACHINI XIII (com a sua fantástica rotina que personificava um mágico de finais do séc. XIX e usando aparatos mágicos que haviam sido fabricados nessa época), PAUL POTASSY (e a sua soberba execução de Sympathetic Silks), DURATY (não me lembro do que fez, mas sei que foi de ir às lágrimas a rir), SALVANO (com uma rotina de manipulação levada ao limite da perfeição, na qual se destacavam as produções de copos com bebidas) e ALI BONGO (no papel de apresentador e sempre com efeitos muito criativos para "matar o tempo" entre convidados).

Claro que também merecem ser referidas as excelentes prestações (que não constituíram novidade para mim) de MAGIC CHRISTIAN, DICK AND DIANA ZIMMERMAN, PRIMO GROTTI, PIERRE BRAHMA e RICHARD ROSS AND VERONIQUE .

As conferências de HARY LORAYNE, MARCONICK, FANTASIO, JEAN MERLIN, RICHARD ROSS e (o inevitável) JUAN TAMARIZ foram muito proveitosas em ensinamentos para aumento da minha "bagagem mágica". Presente nesta FISM estava DAI VERNON e um grupo de portugueses (e não só) aproveitou para registar um fotografia na companhia de "The Professor".

No que se refere a programa social tivemos o habitual banquete, que, não tendo o brilho e glamour dos banquetes de Paris e Viena ficou muitíssimos furos acima do"desastre" de Bruxelas. O único senão resultou da falta de capacidade da sala para albergar todos os congressistas no mesmo dia. Portanto os congressistas foram divididos em dois grupos, os quais desfrutaram do banquete em dias diferentes. O programa proporcionado ao grupo que não tinha banquete foi um passeio de barco no Lago Léman.

Além do já referido LANCE BURTON (que obteve o Grande Prémio e cuja rotina pode ser vista aqui) também me ficaram na memória as actuações, em palco, de DAVIDO, ARSENE LUPIN, SOCRATE, JAY SCOTT BERRY e SANADA. Registo, igualmente, a presença de dois portugueses nos concursos de palco: FRED ALLAN em Manipulação e SERIP em Magia Cómica.

No que se refere ao concursos de mesa destacaram-se MICHAEL AMMAR, DARYL, PEPE CARROLL e AURELIO PAVIATO.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O nascimento do único (até hoje) português Campeão Mundial de Magia.
Nota de sinal + : A conferência de Tommy Wonder.
Nota de sinal + : A minha primeira conferência para mágicos.
Nota de sinal + : A FISM de Lausanne.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

1977 - ANO CINCO (Parte 2)


FESTIVAL DA FIGUEIRA, ESCORIAL E CONVENÇÃO API

Entre 9 e 12 de Junho decorreu mais um Festival Mágico da Figueira, no qual estive presente, apenas como espectador. Recordo as  excelentes  conferências de ALDO COLOMBINI (ainda usando o nome FABIAN), RODEN e CAMPS. Foi nesta última que tomei contacto, pela primeira vez, com uma rotina de "Peixe cortado e recomposto", que iria servir de base de trabalho para construir aquela que é a minha rotina. Um dos complementos culturais desta edição do Festival Mágico da Figueira foi uma exposição de 42 quadros de um artista local (Zé Carlos), glosando 42 truques, mais ou menos icónicos, que são apresentados pelos ilusionistas. 

O grande açambarcador de prémios do Festival foi JOFERK, que, entre outros mais, obteve quatro primeiros prémios (Magia Geral, Magia Cómica, Micromagia e Grandes Ilusões), mostrando, uma vez mais, que era um artista eclético. Também é de referir JODIVIL & MARGOT que obtiveram o Grande Prémio do Festival. Durante este recebemos a notícia da morte de Eduardo Relvas "SAVLER", que era referido, carinhosamente, dentro da comunidade mágica portuguesa, como "Pai Relvas".

Eu, tendo passado o Festival num dolce far niente, voltaria, dias mais tarde, à Figueira da Foz, para trabalhar, cumprindo um contrato com o Casino da Figueira. Para tal tive que fazer "alguma ginástica" relativamente às aulas em que deveria estar presente. Como a última noite de trabalho foi num domingo e, na manhã de segunda feira eu tinha uma aula importante às 10h30 projectei o meu regresso para bem cedinho nesse dia. Faltaria conscientemente às aulas das 8h30 e 9h30, mas estaria presente nessa "aula imprescindível" das 10h30. Assim quando, por volta das 2h00 da madrugada subi para o quarto no hotel onde estava hospedado (Albergaria Nicola, mesmo em frente ao Casino), pedi para ser despertado às 6h30. Portanto quando acordei e vi as horas, soltei uma imprecação de raiva contra o recepcionista pois já passava das 10h00. Nada havia a fazer. Já só poderia assistir às aulas da tarde. Claro que, ao fazer o check-out, fiz o reparo relativamente ao facto de não ter sido despertado na hora prevista. E fui surpreendido com a resposta do recepcionista. Tinha-me telefonado às 6h30, eu atendera e agradecera o aviso. Por isso até estranhara eu não tivesse descido após meia hora, mas pensou que, provavelmente, o pedido de despertar era fruto da necessidade de tomar alguma medicação à hora marcada. Não tive dúvidas que a resposta fora sincera, mas eu não me lembrava de ter atendido o telefone. Faltei à "aula imprescindível" mas aprendi uma lição. A partir desse dia sempre que, estando hospedado num hotel, tive necessidade de ser despertado a horas muito matutinas, optei por afastar o telefone para bem longe da cama, para me obrigar a sair do leito quanto tivesse necessidade de o atender.

Entre 28 e 30 de Outubro participei nas Jornadas Mágicas do Escorial. Fi-lo na companhia de JOFERK, MAURY e IVO (Fred Alan). Este encontro mágico tem uma componente muito pessoal do respectivo organizador (JUAN TAMARIZ) que, na época, juntamente com ASCANIO, era o "motor" da Escuela Magica de Madrid. Foram dias intensos essencialmente preenchidos por Cartomagia. Para descontrair tivemos a visitas dos amigos NICHOLS & HONEY, aproveitando para conviver durante um almoço num restaurante das redondezas.

Ainda hoje recordo a maestria que GABRIEL MORENO e LUÍS GARCIA demonstraram ao abordar o tema Second Deal. Pareciam extra-terrestres... Para além dos apontamentos fornecidos relativamente a cada um dos temas tratados, foi neste evento que adquiri o primeiro volume de LA MAGIA DE ASCANIO ("edición canutillo" da Escuela Magica de Madrid), que tanto me ajudou a começar a entender os conceitos teóricos do mestre ASCANIO.

O ano de 1977 proporcionou-me, ainda, a participação em mais um evento mágico: a Convenção API que decorreu nos dias 26 e 27 de Novembro. Entre as três conferências do evento ficou-me na memória a de CAMILO VASQUEZ, o Campeão Mundial FISM 1973 de Micromagia e, também ele, um elemento destacado da Escuela Magica de Madrid. Dado o facto de já ter terminado o curso, mas ainda não ter emprego, aproveitei esta convenção para "ganhar uns cobres", tendo a minha primeira experiência como Magic Dealer. Para tal fabriquei  o material para três truques que criara a partir de outros já existentes. Eis a reprodução dos envelopes de dois deles.


NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O projecto SKORPIUS
Nota de sinal + : A presença nas Jornadas Mágicas do Escorial.
Nota de sinal - : O falecimento do "Pai Relvas".

POST SCRIPTUM

Em 11 de Março de 2023 descobri, nos Arquivos da RTP, a gravação de um programa com uma reportagem circunstanciada sobre a Convenção API acima referida. Tal programa está referido neste post.

domingo, 23 de janeiro de 2022

1973 - ANO UM (Parte 2)

 


A MINHA PRIMEIRA "FIGUEIRA"

O ano de 1973 reservava ainda um evento relevante para eu vivenciar, desta vez como concorrente: o II Festival Mágico da Figueira da Foz, organizado pela "carolice empenhada" de Fausto Caniceiro da Costa. Concorri na modalidade de Magia Geral e fruto das inovações que, pouco tempo antes, vira na FISM de Paris, optei por substituir as "tradicionais" mesas de mágico por um cenário que aparentava ser um muro feito em tijolo "burro". Tal cenário foi fabricado em madeira e era dividido em três secções principais (e grandes), as quais eram unidas por intermédio de dois blocos de dimensões mais razoáveis para transporte.

Como não tinha carro nem carta de condução, "cravei" o Dr. Homero Rocha (DE ROCK) para me dar boleia para a Figueira da Foz. A viagem de ida foi efectuada de dia e o entusiasmo partilhado pela participação no Festival ocupou o nosso diálogo e fez parecer rápida uma viagem naturalmente demorada, pois a auto-estrada para aquele destino ainda não havia sido construída. O espaço entre bancos da viatura era ocupado pelas peças maiores do meu "muro", pois a mala do SIMCA 1100 não tinha bagageira com arcaboiço para as mesmas.

A presença no Festival da Figueira permitiu-me ter contacto pessoal com alguns mágicos do sul do país, os quais apenas conhecia de nome. SAIUR, JODIVIL e JÓNIO foram três deles. A minha prestação no concurso de Magia Geral foi modesta, tendo obtido o 6º lugar entre 11 concorrentes. Matematicamente falando: exactamente a meio da tabela! Nada mau para um principiante. Mas o que verdadeiramente destaco de todo o ambiente vivido nesse Festival foi a camaradagem nos bastidores e sentido de entreajuda dos diversos concorrentes.


O programa do Festival terminou no domingo (7 de Outubro) com o Espectáculo de Gala e distribuição de prémios. Claro que o 6º lugar não dava direito a prémio, mas permitiu-me obter um diploma de participação.

Uma desenvolvida reportagem sobre este Festival Mágico da Figueira da Foz foi transmitida no programa Movimento da RTP e pode ser apreciada aqui.

Terminado o espectáculo, havia que arrumar as "tralhas" no SIMCA 1100 do Dr. Homero Rocha. E com uma dificuldade acrescida: o Ivo (que algum tempo depois adoptaria o nome artístico de Fred Alan) também iria viajar connosco para o Porto... Ele e a sua bagagem, claro! O Ivo estava consciente da dificuldade que iria ter em encaixar-se, juntamente com o meu "muro", no banco de trás da viatura, mas ele era elegante e cabia, seguramente, melhor do que eu.

Convém aqui fazer uma breve referência ao facto do Dr. Homero Rocha ter alguma insuficiência visual (obviamente corrigida com óculos de elevada graduação) pelo que adoptava, na condução nocturna, (ainda) mais precaução do que na respectiva condução diurna. Quer dizer que as estradas dessa época aliadas a tal facto fizeram com que chegássemos ao Porto por volta das 7 horas da manhã (tínhamos saído entre as 2 horas e as 2 horas e meia da Figueira da Foz). Eu viajava na frente, no chamado lugar do "pendura", e cedo me apercebi do cansaço acumulado pelo nosso "motorista". Sendo assim, passei toda a viagem em permanente diálogo com ele, a fim de garantir que o mantinha bem acordado.

O Ivo, que, no arranque da viagem, participava na nossa conversa, cedo abandonou a mesma e, aconchegando-se no banco traseiro atrás do meu "muro", adormeceu, deixando-me só na importante missão de manter o Dr. Homero Rocha bem desperto. A certa altura eu reparei nesse facto e disse:

- Ó Dr. Homero, o Ivo já dorme profundamente...

De imediato, o meu interlocutor respondeu:

- Ó Jomaguy, eu até já me tinha esquecido que o Ivo viajava connosco!...

E o Ivo lá acordou... quando chegamos ao Porto e fizemos a primeira paragem para descarga de material. Foi precisamente à porta da minha residência. Começámos a descarga pelas diversas peças do meu "muro" e, a certa altura, o Ivo retirou do carro uma pequena mala e colocou-ma à porta, pensando que era minha. Imediatamente lhe disse que aquela mala não é minha, o Dr. Homero Rocha também não reconheceu a mala como sendo sua e, obviamente também não era do Ivo. Conclusão: na confusão de malas e materiais que havia nos bastidores tínhamos trazido para o Porto uma mala que não era de nenhum de nós!

Abriu-se ali mesmo a mala e, pelo respectivo conteúdo, percebeu-se, de imediato, que era o material do espectáculo do SERIP. O Dr. Homero Rocha prontificou-se a ficar com a mala e contactar o SERIP para ver a melhor maneira de lha fazer chegar às mãos. Soube depois que o SERIP andou toda a noite às voltas nos bastidores e camarins do Casino da Figueira da Foz à procura do seu material, pois ia para o estrangeiro cumprir um contrato de actuações e, sem o material, nada feito.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A FISM de Paris.
Nota de sinal + : O Festival da Figueira.
Nota de sinal - : A pouca assiduidade nas reuniões semanais do CIF.