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sábado, 8 de outubro de 2022

2010 - ANO TRINTA E OITO

 


BLOGUE "VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU"...

Este ano começou com novos "ataques" à minha pessoa por CARDINAL, divulgados no seu espaço semanal "Entrada Livre" (publicado no fórum ARTE DA ILUSÃO), os quais aconteceram em três semanas consecutivas, entre 28 de Janeiro e 11 de Fevereiro.

Era desaforo a mais para deixar sem resposta. Mas, como não achei adequado aproveitar o fórum ILUSORIUM para dar uma resposta circunstanciada a tais "ataques", decidi criar, em 27 de Fevereiro,  um blogue para o fazer. Baptizei esse blogue com o título VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU

Entretanto, em 26 de Maio, ao tentar aceder ao fórum ARTE DA ILUSÃO, verifiquei que o mesmo se encontrava inoperativo. Tal situação implicava que os leitores do meu blogue VOZES DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU não tinham maneira de confirmar que as citações dos escritos de CARDINAL que eu aí fazia eram totalmente fidedignas. Para obviar tal situação publiquei um outro blogue (LIVRE ENTRADA) onde reproduzi as imagens das publicações feitas por CARDINAL no fórum ARTE DA ILUSÃO.


 ... E BLOGUE ILUSORIUM

Em Maio o fórum ILUSORIUM entrou num processo de mudança de servidor.  Para suprir o hiato entre o desligar do servidor antigo e o ligar no novo servidor, criamos um blogue com o mesmo nome (ILUSORIUM).

Este mesmo blogue viria a ter utilidade dois anos mais tarde quando o fórum ILUSORIUM foi atacado por piratas informáticos.



NOITE DO PROFESSOR E OUTRAS ACTUAÇÕES

A convite do Prof. Jorge Nuno Silva actuei no evento NOITE DO PROFESSOR 2010, com um espectáculo que uniu Matemática e Magia.

Outras actuações que recordo foram as temporadas com intervenções regulares semanais no TATAMI LOUNGE (Matosinhos) e no BEER & BEER (Espinho).


Também recordo uma actuação especial, devido ao local onde se realizou: uma tenda de circo! Foi a minha primeira (e única) actuação em tal tipo de enquadramento e aconteceu, a convite de VICTOR VALENTE, num evento de circo organizado pela associação cultural AlbergAR-TE.

Por último recordo uma das primeiras actuações deste ano. Tratou-se de uma actuação distinta, pois foi uma palestra, em que a execução/apresentação de alguns efeitos mágico serviu para ilustrar algumas das ideias transmitidas na palestra.



EVENTOS MÁGICOS

Como habitualmente participei no ENCUENTRO LA BARRANCA.

Também assisti ao Congreso Mágico Nacional de España que teve lugar na Corunha. HELDER GUIMARÃES esteve neste congresso como convidado. Este congresso permitiu-me rever JOHN CALVERT, que aí esteve como convidado e que, apesar dos seus 99 anos, ainda foi capaz de "fazer uma perninha". 

Na Gala de Close-up relembro (além do HELDER GUIMARÃES, é claro) as actuações de PIT HARTLING, CAMILO VASQUEZ e MAGO MIGUE. Quanto a conferências destaco a conferência histórica de BILL KALUSH e a conversa, repleta de memórias, entre JUAN TAMARIZ e JOHN CALVERT. Nas galas de palco destaco as intervenções de LUÍS BOYANO, SOMA, NORBERT FERRÉ, JUAN MAYORAL e BARRY & STUART.

Este congresso incluiu, na sua programação, algumas actividades insólitas como, por exemplo, uma "Gala Clandestina", sobre a qual o programa não indicava local, nem hora, nem elenco. Estas informações teriam que ser descobertas pelos congressistas através de pistas indicadas no programa do congresso.


HELDER GUIMARÃES NO MEMORIAL ASCANIO... 

Não estive presente neste evento, para o qual o HELDER fora contratado. No entanto o "eco" da sua prestação chegou-me, no dia seguinte, numa mensagem (via Facebook) dum amigo (ARMANDO GÓMEZ), a qual acima reproduzi.

Esta é a imagem das notas da conferência que o HELDER GUIMARÃES aí proferiu.


... E NÃO SÓ

HELDER também foi convidado (para Talk e Conference) do evento ESSENTIAL MAGIC CONFERENCE , ao qual assisti. E também foi durante 2010 que HELDER GUIMARÃES publicou RED MIRROR, o seu segundo DVD.


NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O percurso sólido de HELDER GUIMARÃES.
Nota de sinal + : A programação inovadora do congresso da Corunha.
Nota de sinal - : Os escritos provocatórios de CARDINAL.

sábado, 1 de outubro de 2022

2009 - ANO TRINTA E SETE

 


ISTO NÃO É NORMAL

Este foi o título do espectáculo unipessoal de HELDER GUIMARÃES, que teve palco em Lisboa, na Casa da Comédia, na segunda quinzena de Fevereiro. Obviamente que me desloquei a Lisboa um par de vezes, para a ele assistir.

O que também não seria, para mim, normal foi precisamente o que me aconteceu entre 27 e 30 de Agosto: encarnar a personagem de um mágico medieval ao ser contratado para actuar nos DIAS MEDIEVAIS DE CASTRO MARIM.


EVENTOS MÁGICOS

Em Março participei na edição anual dos Encontros Mágicos de Sintra, os quais "descobriram" mais um local do imenso Portugal desconhecido para se concretizarem: Unhais da Serra.

Em Junho participei na edição anual dos Encuentros de La Barranca.



UMA OFICINA DE MAGIA... E UM "ATAQUE" DE CARDINAL

Tendo sido convidado pela Oficina da Coisas para ministrar um workshop de ilusionismo nas suas instalações, ficou o mesmo inicialmente agendado para 26 de Setembro. Circunstâncias ligadas à gestão do espaço onde tal iria decorrer, levaram a que o mesmo viesse a ser adiado para 31 de Outubro.

A divulgação de tal oficina foi feita nos seguintes termos:


Ora (sabe-se lá porquê...) tal publicidade não agradou a CARDINAL, o qual aproveitou a sua crónica semanal "Entrada Livre" (publicada no fórum "Arte da Ilusão") para desancar na oficina publicitada nos moldes que a imagem seguinte documenta.


Esta foi a primeira de várias crónicas (publicadas no supracitado fórum) com as quais CARDINAL procurou atingir-me. Mas essas outras já fazem parte das memórias de 2010.


NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A experiência de trabalhar num evento medieval.
Nota de sinal - : A existência de críticas "destrutivamente" construtivas.

sábado, 24 de setembro de 2022

2008 - ANO TRINTA E SEIS

 


MAGIA NA RUA 

Em abono da verdade nestes 36 anos de prática do ilusionismo não fiz "actuações típicas” de rua, embora tivesse actuado em coretos, escadarias de Câmara Municipal, palcos improvisados ao ar livre, etc. A situação mais próxima de uma actuação de Magia de Rua aconteceu em 6 de Setembro deste ano através da participação no 3º Festival Nacional de Animação de Rua que decorreu na Rua da Junqueira (Póvoa do Varzim) e foi promovido pela Associação Comércio ao Ar Livre. E considero que foi uma experiência muito interessante.



MAIS UM FÓRUM DE ILUSIONISMO

Em 29 de Fevereiro deu-se o arranque de mais um fórum de ilusionismo em língua portuguesa, fruto da iniciativa de ALEXANDRE TERESO. Este fórum foi baptizado com o nome "ARTE DA ILUSÃO" e expressava em subtítulo "Forum que permite aos ilusionistas trocarem pontos de vista sobre o estado geral do ilusionismo". Foi neste fórum que, em 24 de Julho, se iniciou a publicação das crónicas semanais "ENTRADA LIVRE" da autoria de A. CARDINAL. 


THE BLACKPOOL MAGICIANS CONVENTION

Acompanhei o HELDER GUIMARÃES nesta ida a Inglaterra, onde ele foi actuar em close-up e conferenciar. Nesta viagem tivemos a companhia do DAVID SOUSA que também foi actuar em palco no mesmo evento. Ora a viagem programada tinha escala no Aeroporto de Heathrow (Londres). E foi nesta escala que aconteceu uma cena verdadeiramente caricata, pois fomos confrontados com a necessidade que "eliminar" uma das malas de mão que nos acompanhava a bordo. Foi um verdadeiro espectáculo público que proporcionamos aos transeuntes do aeroporto, com as malas abertas no chão na tentativa de realojar roupas e demais pertences. O DAVID SOUSA teve a vida um pouco mais complicada, mas lá se safou vestindo várias camisolas e casacos uns por cima dos outros e atestando os bolsos com cuecas e peúgas. 


A conferência do HELDER GUIMARÃES foi muito bem recebida e as novas notas de conferência (melhor dizendo, as mesmas notas de conferência mas com uma capa mais apelativa... e plena de significado mágico) esgotaram.


Um dos momentos mais sui generis desta convenção teve a ver com o formato da respectiva gala de close-up. A situação, tal e qual a percepcionei, levaria a que, em vez de gala de close-up, lhe chamasse largada de mágicos.

Devo começar por dizer que, na génese de tal formato, há uma boa ideia: a de proporcionar verdadeiras actuações de close-up aos participantes. Portanto havia um número significativo de locais (talvez dez ou mais) onde existia uma mesa própria para actuações de close-up e uma vintena de cadeiras colocadas como plateia em frente das mesmas. E os diversos actuantes apresentavam as suas rotinas em todas os locais existentes. Até aqui tudo bem. É uma solução interessante e tudo funcionaria de forma excelente se tais locais estivessem devidamente distanciados e isolados entre si, o que não acontecia.

Vou tentar descrever a situação implementada da melhor forma possível... Imaginem uma praça de touros em que a arena está fechada e funciona como bastidores. À volta deste redondel existe uma coroa circular a qual está dividida em vários sectores separados por biombos. Cada um destes sectores de coroa circular era precisamente um dos tais espaços com uma mesa e uma plateia com uma vintena de cadeiras e tinha uma porta de comunicação com a arena central (bastidores). Ao toque de um apito todas as portas se abriam em simultâneo e cada actuante entrava no local que lhe estava destinado. E tinha uma dezena de minutos para apresentar a sua rotina.

Ora era aqui que começava a confusão da interferência dos sons entre os diversos actuantes, nomeadamente dos aplausos que cada um conseguia do seu público. No final da respectiva actuação, cada actuante recolhia aos bastidores e, após todos terminarem, novo apito se ouvia e acontecia nova largada dos mágicos, cada um actuando num local diferente do anterior.


Efectivamente o espaço físico era ligeiramente diferente do que descrevi, conforme documenta a imagem reproduzida. Não havia uma "coroa circular", mas sim uma área designada Horseshoe Arena e os bastidores funcionavam no Pavilion Theatre

Uma outra grande memória desta convenção é a imagem da enorme feira mágica, que proporciona um ambiente de ruído de fundo digno de uma verdadeira Torre de Babel.



LUÍS DE MATOS NO MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Em 6 de Julho rumei a Alcobaça na expectativa de ver o respectivo Mosteiro ser palco da maior metamorfose de todos os tempos. Ora como diz o povo na sua infinita sabedoria "o que começa torto, tarde ou nunca se endireita". E este espectáculo de LUÍS DE MATOS começava muito torto ao usar como cartaz promocional uma fotografia que é, claramente, um plágio da foto promocional do filme O ILUSIONISTA onde o protagonista EDWARD NORTON aparece precisamente na mesma pose.

Por isso não é de admirar que a situação tenha mesmo dado para o torto com inúmeras críticas a serem tecidas ao evento, de que é exemplo a notícia seguinte.


Esta deslocação a Alcobaça foi mesmo para esquecer, pois até o frango na púcara que nos serviram para jantar como especialidade da casa estava abaixo de sofrível.


MAGICVALONGO

Seria com certeza um esquecimento imperdoável não referir este evento pois, nas palavras de um dos organizadores (António Cardinal), é "o maior evento de ilusionismo que se realiza anualmente no nosso país e um dos melhores a nível mundial" (sic) conforme se pode constatar nesta notícia de A Voz de Ermesinde.

A mesma notícia permite ainda ler a seguinte pérola que me dispenso de comentar: o MagicValongo é actualmente a grande universidade do ilusionismo em Portugal, citando entre outros o nome do campeão do mundo de cartomagia, Hélder Guimarães, como um dos "alunos" saídos da "Universidade MagicValongo" (sic).


MAGIALDIA

Este ano também participei neste evento mágico que possui um largo historial de qualidade. E devo dizer que em nada frustrou as minhas expectativas. A deslocação a Vitoria-Gasteiz também me permitiu visitar o excelente MUSEO FOURNIER DE NAIPES DE ALAVA.

Relembro a magia de GABI e a boleia que lhe proporcionamos para ir para a sede do congresso. A deslocação foi feita na companhia do MANOLO e da Glória, além da Fátima, evidentemente. Tudo correu bem e, no dia seguinte ao nosso regresso, fomos surpreendidos com uma notícia televisiva que dava nota da explosão de uma bomba no parque de estacionamento onde, habitualmente, aparcávamos.


NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A experiência de trabalhar na rua..
Nota de sinal - : Tentativas de "cavalgar nas costas" do sucesso de outros.
Nota de sinal - : A "bronca" de Alcobaça.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

1975 - ANO TRÊS (Parte 2)

 


JOHN CALVERT E O ESPECTÁCULO MAGICARAMA

Em meados deste ano atracou no Porto o iate MAGIC CASTLE, propriedade do ilusionista JOHN CALVERT, que nele se fazia transportar juntamente com a sua esposa (e partenaire) TAMMY e o seu empregado Henry.  A bordo também vinha todo o equipamento do seu grande espectáculo MAGICARAMA, o qual podia ser apresentado em qualquer cidade costeira em que decidisse parar durante as suas viagens marítimas, bastando, para tal, contratar alguns ajudantes locais.

Foi precisamente isso que aconteceu no Porto. O seu primeiro contacto foi com o JOFERK, o qual o apresentou aos mágicos do CIF. Desde logo ele manifestou a vontade de apresentar o seu espectáculo na nossa cidade, pelo que foi encaminhado para a sala de espectáculos que seria adequada para o efeito e que já tinha alguma tradição de receber espectáculos de ilusionismo (o último havia sido em 1972, com RICHIARDI Jr. como cabeça de cartaz): o Teatro Sá da Bandeira.

Dado que eu tinha um certo à-vontade na língua inglesa disponibilizei-me para ser o seu tradutor na abordagem à gerência do Teatro Sá da Bandeira. Depois do "negócio" ter sido fechado, CALVERT tinha que completar o elenco com "mão-de-obra" local. Ele tentou contratar os quatro assistentes masculinos de que necessitava no âmbito dos ilusionistas jovens do CIF, tendo conseguido apenas três: eu próprio, Raul de Carvalho "UL-DE-KAR" e José Ribeiro "JOY". Nove das dez assistentes femininas que necessitava foram contratadas num casting realizado na sequência de um anúncio publicado na imprensa. Observar tal casting e perceber as razões de CALVERT para optar por uma assistente em detrimento de outra foi uma das muitas lições que a minha temporada junto do grande ilusionista americano me proporcionou. Perceber como se monta um grande espectáculo teatral de duas horas foi outra.

O espectáculo não foi um estrondoso êxito e o facto de ter decorrido em pleno verão também não o favoreceu, mas direi que a grande maioria dos espectadores que a ele assistiram saíram da sala satisfeitos e com a noção de terem passado duas horas de bom entretenimento. Claro que não se pode agradar a toda a gente... Por isso a crítica escrita por CARDINAL na sua colaboração semanal nas páginas do JN, não foi a melhor. E, nessa crítica, a minha colaboração também foi questionada.

Mesmo antes de ler o texto de CARDINAL, já tinha percebido que fazia alguma confusão a certas mentalidades do nosso meio mágico que eu, tendo obtido poucos meses antes o 1º Prémio de Manipulação no Festival Mágico da Figueira da Foz, aceitasse uma simples posição de ajudante num espectáculo de Ilusionismo. No entanto, não me "caíram os parentes na lama" por fazê-lo e proporcionei a mim mesmo, numa fase inicial da minha carreira, a possibilidade de obter um conjunto de valiosos ensinamentos que, de outra maneira, demoraria vários anos a conseguir.

Entre os diversos quadros do espectáculo nos quais participei, destaco "O Boudoir Feminino" que viria, anos mais tarde a servir de inspiração para o número final da rotina com a qual o grupo DESERTO & COMPANHIA viria a conquistar um 3º lugar no ESTORILMÁGICO CASCAIS 97. É precisamente desse quadro a fotografia seguinte.



Também um outro quadro ("Histórias por Frankenstein") me merece destaque pois serviu de base para o desenvolvimento da rotina "A Decapitação" do grupo SKORPIUS.

Além do tempo de ensaios e actuações no espectáculo MAGICARAMA, passei muitas horas em conversas com CALVERT no seu iate (atracado na Ribeira do Porto), nas quais tentei absorver o maior número possível de ensinamentos do showman americano. Dele guardo carinhosamente uma gigantesca brochura de promoção artística (com dedicatória) e a fotografia (também com dedicatória) que, seguidamente, reproduzo.



Uma gravação do espectáculo MAGICARAMA efectuada 10 anos mais tarde (quando Calvert já tinha 84 anos de idade) pode ser vista aqui:


E, porque o ano de 1975 é fértil em recordações, tal como prometido, haverá um terceiro post. Será publicado amanhã.


sábado, 15 de janeiro de 2022

1972 - ANO ZERO


O PRIMEIRO PASSO

Até 1972  apenas os familiares e amigos próximos eram os privilegiados com o desfrutar das minhas exibições, ou, dito de outra forma, apenas eles tinham que “gramar” a exibição das minhas aptidões(?) mágicas. Mas eis que surge a minha grande oportunidade: a actuação num espectáculo a valer: a Récita dos Finalistas do Liceus D. Manuel II e Carolina Michaëlis. 

Já em anos anteriores tinha havido actuações, ditas, mágicas, mas, de acordo com o que me foi transmitido nessa altura, não tinham passado de tentativas burlescas com objectivos de paródia estudantil. Tal situação jogava, duplamente, a favor da minha actuação. Por um lado os espectadores estariam à espera de mais uma paródia estudantil e seriam mais facilmente ilusionados. Por outro lado, se algo corresse desastradamente, a minha exibição seria enquadrada nos parâmetros da habitual irreverência dos estudantes e a minha carreira como mágico estaria terminada antes mesmo de começar. 

Adoptei, desde logo, como nome artístico aquele que ainda hoje utilizo: JOMAGUY. No entanto não fui suficientemente expedito a comunicá-lo à organização pelo que no programa apareceu, para minha mágoa, o nome pelo qual era conhecido no Liceu: Guimarães. 

Pelo que foi exposto quanto ao enquadramento da minha actuação é fácil concluir que, na noite de 26 de Fevereiro de 1972, quando pisei o palco do anfiteatro do Liceu D. Manuel II para actuar, estava sem ponta de nervosismo, o que, obviamente, contribuiu para uma prestação à qual foram tecidos os mais rasgados encómios... pelos amigos e familiares presentes. A foto seguinte corresponde a um dos momentos dessa actuação.

A DESCOBERTA DO MUNDO DA MAGIA

Como a Récita era conjunta com o Liceu Carolina Michaëlis, no sábado seguinte (4 de Março), repeti a actuação no ginásio/teatro daquele estabelecimento de ensino. Foi aí que conheci, pessoalmente, um ilusionista: Renato Caldevilla (RENÉ). Ele tinha sido alertado pela neta, que frequentava o Carolina, para a presença dum ilusionista no elenco do programa e foi assistir ao espectáculo. No final do mesmo procurou-me e, depois de tecer alguns elogios à minha prestação mágica, convidou-me a aparecer um dia no CIF, dando-me para tal o seu contacto telefónico. Foi ele o responsável pela transmissão ao Cardinal dos dados que proporcionaram que uma notícia a meu respeito aparecesse, em 12 de Março de 1972, na secção MAGIA do JN.

Depois dessa auspiciosa estreia interrogava-me a mim mesmo quanto ao aparecimento de novas oportunidades de exibição pública, quando fui convidado para participar num espectáculo de beneficiência a realizar no Salão Paroquial de Nossa Srª da Conceição, em 20 de Maio de 1972. Claro que, de imediato, aceitei. 

Esse espectáculo que, inicialmente, estava previsto ser integrado, apenas, por artistas amadores principiantes, acabou por registar a presença de vários artistas consagrados, entre os quais aquele ilusionista que era o meu ídolo: JOFERK. Imaginem os sentimentos contraditórios que então me invadiram: por um lado o júbilo de ir conhecer, pessoalmente, aquele mágico que considerava como modelo de referência e por outro lado o receio de ver a minha actuação menos apreciada ao estar sujeita a comparação com tão excelente ilusionista. 

Como era habitual no final de tal tipo de espectáculo houve um convívio entre os artistas intervenientes e foi aí que me apaixonei pelo... close-up. Foi decididamente um caso de amor à primeira vista fruto de uma impecável exibição informal de JOFERK, de que ainda recordo o “Chop Cup” e a “Carta Polaroid”. O que aí presenciei em cartomagia nada tinha a ver com a maioria dos truques de cartas (enfadonhos, devo referir) que, até essa altura, se haviam cruzado comigo nas minhas leituras mágicas. Também o JOFERK me convidou a aparecer no CIF, depois de passar o Verão.

Resta acrescentar que o meu primeiro encontro pessoal com JOFERK foi fruto do acaso, pois os ilusionistas previstos para tal espectáculo eram EDGAR e DE ROCK, conforme mostra o programa impresso, que o Coimbra teve a preocupação de rectificar pelo seu próprio punho.


A INTEGRAÇÃO NO UNIVERSO DO ILUSIONISMO

A partir do último trimestre de 1972, sempre que os estudos permitiam, aparecia nos Fenianos e na respectiva "filial" de Mouzinho da Silveira: A Fogueira das Meias. Comecei aí uma fase de descoberta do Ilusionismo e aprendizagem constante em que o contributo do Coimbra foi, como sempre reconheci, fundamental. E até foi ele que me proporcionou a hipótese de realizar o meu primeiro espectáculo remunerado: uma festa de Natal que ele não pode aceitar por ter outra à mesma hora.

Em Dezembro de 1972 estreou no Teatro Sá da Bandeira (Porto) um grande espectáculo mágico (intitulado FESTIVAL INTERNACIONAL DE MAGIA) cujo cabeça de cartaz era RICHIARDI Jr. (Nota: este espectáculo havia sido estreado em Lisboa, com um elenco diferente, e aqui e aqui podem ver-se duas reportagens diferentes do mesmo, com a particularidade de, numa delas, se poder apreciar uma parte da actuação do saudoso mágico português HORCAR; a imagem do programa autografado por RICHIARDI Jr. corresponde ao espectáculo de Lisboa). Foi o primeiro grande espectáculo mágico que tive oportunidade de assistir ao vivo. Fi-lo na companhia de diversos mágicos portuenses. Começou aí a minha integração na comunidade mágica portuguesa. No final do espectáculo estivemos nos bastidores com RICHIARDI Jr.. Este foi, naturalmente, um convívio breve, o qual seria complementado, dias mais tarde, com um convívio mais alargado à roda de uma mesa de um conhecido restaurante de Lavadores.

Quando acima citei o nome HORCAR, não pude deixar de me lembrar de uma coincidência entre os nossos percursos mágicos: tal como eu, também ele se apresentou pela primeira vez em público na Festa de Finalistas do 7º ano do Liceu.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : O início da amizade com Fernando Coimbra "JOFERK".
Nota de sinal + : A descoberta da magia de close-up.
Nota de sinal + : O espectáculo de RICHIARDI Jr..
Nota de sinal + : O meu primeiro espectáculo remunerado.
Nota de sinal - : A existência de "ídolos com pés de barro" (Ver aqui).

POST SCRIPTUM

Após a publicação deste post detectei a ausência do nome de HORCAR no programa do espectáculo. Tal ficou a dever-se ao facto de HORCAR ter sido uma contratação de última hora para substituir um artista que não pode comparecer.


sábado, 8 de janeiro de 2022

PRÉ-HISTÓRIA MÁGICA, DESPERTAR E AUTODIDATISMO


A MINHA PRÉ-HISTÓRIA MÁGICA

Relembro a excitação que sempre me causavam, na minha infância, as idas ao circo na companhia dos meus Pais. Mais do que as actuações dos palhaços eram as prestações dos mágicos que mereciam a minha preferência. Ainda hoje retenho a imagem de um desses mágicos, vestido de branco, produzindo cigarros atrás de cigarros. Quem seria?

Mais tarde relembro um espectáculo de circo e variedades, realizado no Cine-Teatro Vale Formoso, em que o apresentador, depois de realizar a sua actuação de mágico, fez desaparecer uma garrafa de vinho e alguns chocolates numa das suas caixas mágicas, desafiando a assistência a descobrir o truque. E lá subi ao palco para descobrir a marosca e... ganhar a garrafa e os chocolates. Foi esse o meu primeiro contacto com uma caixa que, mais tarde, viria a saber denominar-se, no meio mágico, como "tip over box".

O DESPERTAR

Em 1967 o Jornal de Notícias publicou uma série (em minha opinião, curta) de 14 artigos designada «FAÇA VOCÊ TAMBÉM DE MÁGICO!», que recortei (e ainda hoje conservo), li e reli vezes sem conta, onde aprendi alguns truques, que fui praticando entre familiares e amigos, alimentando, ainda que de forma ténue, um "bichinho" que um dia iria desenvolver-se.


Em Dezembro de 1969 iniciou-se a publicação regular dominical da secção MAGIA (da autoria de Cardinal), no Jornal de Notícias, que, igualmente, recortei e li, embora ficasse, nessa altura, desiludido com a pouca profusão no que se referia a explicação de truques. Mas foi através da leitura dessa rubrica que tomei conhecimento da actividade da Academia Portuguesa de Ilusionismo (API), nessa altura já a cargo de José Carlos Martins Oliveira, pois o pai já havia falecido. Depois dos primeiros contactos escritos com a API, como resposta a um desafio publicitado nas páginas do JN (“Tabuleiro de Damas”), e dum posterior contacto telefónico desloquei-me à respectiva sede (Campo Mártires da Pátria, 27-1º) e adquiri o meu primeiro conjunto de material, pode dizer-se, profissional.


Igualmente, através da MAGIA do JN, tomei conhecimento da existência do Clube Ilusionista Fenianos, mas a ausência de um estímulo directo para o contacto a par de alguma timidez natural inibiu-me de dar o primeiro passo de aproximação. 

Antes mesmo desse contacto com a API já havia descoberto que a Livraria Bertrand tinha alguns livros de Ilusionismo à venda, cuja aquisição comecei a fazer, na medida das minhas possibilidades. Esta busca de livros de Ilusionismo levou-me ao contacto, entre outros, com os livros de Martins Oliveira (o meu primeiro livro de Ilusionismo foi MAGIA DO SÉC. XX, adquirido em 25 de Junho de 1970). O estilo desse prolífero autor, com a permanente referência a círculos restritos de amadores seleccionados, despertou em mim a vontade inequívoca de aprender sempre mais, imaginando o dia em que atingiria o grau necessário para ingressar nessa classe de elite. Nessa aprendizagem os truques de cartas eram, sistematicamente, postos de lado pois ou os achava enfadonhos pela demora da respectiva execução ou de pouca ilusão, face aos princípios matemáticos envolvidos, cuja existência me parecia de fácil detecção pelos espectadores. 

Foi, igualmente, na Livraria Bertrand que descobri os livros de magia de língua espanhola da autoria do Padre Wenceslao Ciuró. "Ilusionismo Elemental" foi o primeiro livro que adquiri deste autor e foi, provavelmente, o livro de magia que mais vezes reli nos anos que se seguiram.

AUTODIDACTISMO

Passei então por uma fase (1970/1971) de constante procura de livros e de espectáculos em que actuassem ilusionistas. Começava nessa época a ter uma certa atitude crítica em relação às actuações dos ilusionistas, ditos de circo (sem desprimor por quem quer que seja que alguma vez tenha integrado tais elencos), pois me pareciam, de uma forma geral, bastante repetitivos. Retenho, no entanto, como excepções, os casos de Conde D’Aguilar (pela sua impecável apresentação) e de D. Aguinaldo (pela surpresa e ineditismo dos seus números). 

Aos domingos de manhã, no Porto, havia um espectáculo de variedades chamado Festival que, infelizmente para o meu desejo, não era tão variado assim, pois não apresentava Ilusionismo. Mas eis que surgiu um programa similar, mas suficientemente abrangente e (porque não dizer?) inovador para o panorama artístico da época a ponto de incluir ilusionistas no respectivo elenco: foi o programa Pica-Pau. Infelizmente, para meu desencanto, durou pouco tempo esse projecto. Creio que não falhei a presença num único desses espectáculos, onde tive oportunidade de apreciar algumas actuações que me maravilharam, até porque fugiam do figurino habitual das actuações de circo. Foi, nesse programa, que adoptei o meu primeiro ídolo no âmbito do Ilusionismo. Adivinham de quem se tratava? Se responderam JOFERK, acertaram.

Para além de assistir às actuações dos ilusionistas, procurava, nessa época, descobrir como eles executavam os truques e fabricar o material necessário para os mesmos, nuns casos com sucesso, noutros, nem por isso. Por vezes, quando tal fabrico exigia aptidões de costura que, obviamente, não possuía, recorria aos serviços de uma costureira que, ocasionalmente, trabalhava lá em casa em prejuízo dos arranjos de roupa para cuja execução era contratada pela minha mãe. Ainda hoje conservo um lenço de pintas e um saco-galinha fabricados nessa época. Tal processo de aprendizagem conduziu-me, naturalmente, para efeitos de magia de palco. A magia de close-up permanecia como uma pérola por descobrir.

NOTAS DE RODAPÉ
Nota de sinal + : A descoberta dos livros do Padre Wenceslao Ciuró.
Nota de sinal - : O encerramento da Academia Portuguesa de Ilusionismo.