Mostrar mensagens com a etiqueta Liebenow. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liebenow. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de janeiro de 2022

1974 - ANO DOIS

 

Seguramente que, por mais eventos ilusionísticos relevantes que este ano (1974) tivesse tido, não poderia deixar de referir o 25 de Abril (Revolução dos Cravos) como o evento mais mágico do ano. Naturalmente que afectou a vida de todo o povo português. As alterações que vieram a ser introduzidas na sociedade portuguesa permitiram aos mágicos outra possibilidade de contacto com o estrangeiro, nomeadamente no que se refere à aquisição de material e livros (as explicações em videocassetes e DVD's ainda pertenciam à  ficção científica da época)

Foi precisamente, em Junho deste ano que adquiri um livrinho (Dai Vernon's Symphony of the Rings) a partir do qual aprendi a técnica de uma rotina de Argolas Chinesas que, essencialmente, é a mesma que, hoje em dia, ainda apresento. Aprender a partir da leitura de texto com apoio em fotografias é substancialmente diferente de aprender a partir de videos, mas permite obter uma manuseamento dos objectos (neste caso, das argolas) que difere dos "maneirismos" do professor ("pun intended" para mágicos).

Foi durante este ano que tive a minha primeira experiência de "mágico profissional", ao realizar actuações iguais, em dias consecutivos, para públicos diferentes e em locais tão "especiais" como um castelo ou as escadarias frontais de uma Câmara Municipal. Foi uma digressão por terras transmontanas integrado no elenco artístico da FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho), organismo que viria a dar lugar ao INATEL (Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres). Era uma digressão que estava programada com a participação de JOFERK, que não a concretizou por um bom motivo: ficar "à espera da cegonha" que lhe trazia a filha Raquel.

Mesmo sendo uma digressão curta, deu para ter uma pequena ideia do grau de perfeição que um profissional pode atingir quando executa, diariamente, a mesma rotina mágica, a qual vai "polindo" com a experiência de cometer pequenos erros e de os solucionar.


Perto do final do ano o CIF organizou o 3º ENCONTRO NACIONAL DE ILUSIONISMO, o qual teve dois convidados estrangeiros de peso: JUAN TAMARIZ e EBERHARD LIEBENOW. As respectivas actuações e conferências foram muito bem recebidas e trouxeram aos mágicos portugueses muitos ensinamentos. A magia com fichas de jogo (apresentada por Liebenow) viria a ser parte integrante de muitas das minhas rotinas de close-up (nessa época eu ainda não tinha introduzido o termo Magia de Proximidade para designar o que, internacionalmente, é conhecido como Close-up Magic) e começar a perceber a teoria com que Tamariz suportava as suas apresentações foi muito importante para entender que a Magia ia muito mais além do que o truque bem executado.

Embora não viesse com o estatuto de convidado, um outro mágico espanhol de elevada qualidade acompanhou Tamariz na sua deslocação ao Porto: Juan Antón. As suas actuações de improviso fizeram as delícias de quem a elas assistiu. Antón era um comunicador nato e tinha um enorme sentido de humor e (relembro) tinha sido o parceiro de Tamariz na formação da dupla LOS MANCOS que, no Congresso FISM de 1970 (Amesterdão), havia conquistado o 2º lugar no Concurso de Micromagia. Seguidamente deixo um video em que Juan Antón executa a sua rotina pessoal de covilhetes.


Além das Notas de Conferência, Tamariz trouxe para venda dois livros de que era autor e que pertenciam à colecção "Monografias Mágicas Misdirection" publicada pela Editorial CYMYS. A qualidade mágica de tais publicações, abriu-me o apetite para outras publicações mágicas da mesma editora, pelo que, de imediato, enviei carta à Editorial CYMYS a solicitar toda a informação disponível sobre tal matéria. Na sequência de tal resposta iria adquirir (no início de 1975) vários livros dos quais destaco os dois volumes de MAGIA DE CERCA da autoria de Lewis Ganson.

No âmbito do 3ª ENCONTRO NACIONAL DE ILUSIONISMO integrei o elenco do espectáculo "Noite de Magia", realizado no Salão Nobre do Clube Fenianos Portuenses na noite de 2 de Novembro. No programa que apresentei estava incluída uma rotina de corda e argola que servia de introdução a uma rotina mágica com três argolas. No dia seguinte realizou-se um almoço informal com vários mágicos num restaurante da zona ribeirinha do Porto. Enquanto esperávamos no exterior que preparassem uma mesa apropriada para o convívio gastronómico que se ia seguir, LIEBENOW abeirou-se de mim e perguntou se lhe poderia ensinar um dos passes da minha rotina de corda e argola que vira na noite anterior. Dado que ainda tinha o material do espectáculo na mala do carro (o qual estava ali mesmo estacionado com o "ovo estrelado" à vista), imediatamente fui buscar a corda e argola necessárias para proceder a tal demonstração/ensinamento. É precisamente esse momento que a fotografia seguinte documenta e onde se pode ver que, além de LIEBENOW, também a MARGOT e o JOFERK seguem atentamente a minha explicação.

NOTAS DE RODAPÉ

Nota de sinal + : A experiência actuar todos os dias, como um profissional a tempo inteiro.
Nota de sinal + : A conferência de Juan Tamariz.

sábado, 22 de janeiro de 2022

1973 - ANO UM (Parte 1)

 

A MINHA PRIMEIRA FISM

O ano de 1973 ficou marcado na minha memória pela presença na FISM de Paris. Acho que muitos mágicos partilharão comigo o seguinte pensamento: a primeira FISM é inolvidável! Para mim ainda terá sido mais, pois nunca havia participado em nenhum congresso ou festival mágico.

A ida a tão importante congresso mágico foi rodeada de alguma peripécias que irei partilhar convosco. Em primeiro lugar convém notar que vivíamos num período político onde pontificava a ditadura do regime do Estado Novo. Embora Marcelo Caetano tivesse criado alguma abertura com a chamada "primavera marcelista" continuava a existir guerra colonial, para onde eram enviados os mancebos alistados no SMO (Serviço Militar Obrigatório).

Era um tempo em que muitos mancebos se escapavam ao cumprimento da prestação do SMO, emigrando "a salto" para países a Europa central, nomeadamente França. No entanto o governo permitia, a quem estivesse envolvido em estudos universitários, adiar a respectiva incorporação no SMO até concluir o respectivo curso superior, desde que tal conclusão acontecesse até o "adiado" completar uma determinada idade (creio que 25 ou 26 anos).

Nesse tempo ainda não havia UE (União Europeia), pelo que era necessário obter um passaporte para viajar. Naturalmente que era muito difícil ser atribuído um passaporte a um mancebo de 18 anos que queria viajar para França. Mas, com recurso a um compromisso pessoal do meu Pai, assegurando que eu regressaria após o Congresso FISM, lá consegui que me atribuíssem um passaporte de validade reduzida, quando o normal era uma validade de 5 anos.


Mas, mesmo após a resolução deste problema, outra situação poderia inviabilizar a minha viagem a Paris. As datas em que iria decorrer a FISM de Paris eram também datas em que decorreriam os exames universitários e uma das exigências de meu Pai relativamente às férias mágicas em Paris era a seguinte: eu não poderia prejudicar os meus estudos com tal viagem. Sendo assim aguardei a marcação de exames, sabendo que só poderia ir a Paris se o exame marcado para as datas da FISM fosse precisamente a disciplina a que havia dispensado de exame... E foi isso que aconteceu!... Claro que dei pulos de júbilo quando vi essa feliz coincidência.

A viagem para Paris foi feita de comboio e quem tratou de a organizar foi o Coimbra pois já tinha experiência de anteriores idas a Paris com grupos do Instituto Francês. Além dos quatro mágicos (DE ROCK, JOFERK, JOMAGUY e MACOS) o grupo integrou a Cristina (esposa e partenaire do JOFERK) e mais alguns amigos do Coimbra que iam passar uma semana de férias a Paris. Apesar de viajarmos nas carruagens ditas "couchettes" não deu para dormir o suficiente pois a expectativa de ir assistir a uma FISM a par do bom convívio entre todos não o permitiram. E também não deu sequer para abrir a "sebenta" para estudar para o exame que me esperava três dias após o regresso de Paris.

O programa da FISM 1973 (cuja capa está reproduzida acima) estava repleto de momentos que se revelariam inolvidáveis para um neófito em tais andanças, que nunca tinha sequer assistido a uma simples conferência mágica. E relativamente a conferências a FISM de Paris apresentou inúmeros "pesos pesados" da Arte Mágica, como por exemplo: FLIP, LIEBENOW, GEOFFREY BUCKINGHAM, NIC NIBERCO e DICK ZIMMERMANN. Em todas elas aprendi algo que me durou para a "vida mágica", mas destacaria como sendo as mais importantes para a minha aprendizagem mágica as conferências de Jean Merlin e Fred Kaps. Assistir à actuação de FRED KAPS numa das galas foi algo de muitíssimo especial e "beber" os seus ensinamentos transmitidos na conferência que proferiu foi mesmo a "cereja no topo do bolo". Ainda hoje constitui um dos meus "pequenos tesouros mágicos" as notas de conferência que adquiri e que ele, gentilmente, autografou,

A par das actuações primorosas de muitos convidados (SAMSON, SILVAN, TOPPER MARTYN, ALI BONGO, SHIMADA e OMAR PASHA foram alguns deles), tive a oportunidade de assistir às exibições de concorrentes (muitos deles de grande qualidade) com ideias e apresentações cénicas inovadoras e que rompiam com o modelo mais tradicional do estereótipo de um mágico. Direi que tais actuações como que ampliaram largamente a minha perspectiva da Arte Mágica.

Os Congressos FISM têm sempre uma componente social com um jantar de gala. Desta minha primeira FISM não esqueço a recepção que tivemos no Palácio de Versalhes com almoço na "Orangerie do Palácio", em que, ao entrar, tivemos direito a ser anunciados com o toque de trombetas à boa maneira das recepções da realeza. A comida (variadíssima) e bebida à discrição que nos esperavam constituíram um lauto banquete que proporcionou sadios momentos de descontracção e convívio.

Um dos focos de bastante interesse nos grandes Festivais e Congressos de Magia é a respectiva Feira Mágica. Naturalmente que a FISM não é excepção. Nesta minha primeira FISM, como estudante, as poupanças da minha mesada não deram para grandes flostrias. No entanto, uma das aquisições que fiz viria a ser fundamental na minha aprendizagem da manipulação de cigarros que, anos mais tarde, iria integrar uma das minhas rotinas mágicas. Refiro-me ao livro "Enciclopédie des Tours de Cigarettes" da autoria de Keith Clark.

Uma das memórias que tenho desse tempo é a da fraca participação dos associados do CIF nas respectivas reuniões semanais. Apenas os 4 elementos acima referidos que se deslocaram a Paris e o Sr. João Marques Pinto eram assíduos frequentadores das mesmas. No entanto nas primeiras reuniões agendadas pós-FISM o CIF registou uma afluência que eu, até aí, nunca tinha visto. Essa situação foi por mim caricaturada com o cartoon que seguidamente reproduzo.

NOTA FINAL: Amanhã publicarei um novo post em que partilharei outras memórias deste ano.